Arquivo mensal para March, 2015

Ir para fora cá dentro

Um país só sabe o que quer fazer no mundo se souber primeiro aquilo que quer ser.

Portugal tem diplomacia mas não tem política externa, dizia José Medeiros Ferreira. Infelizmente, isso nunca foi tão verdade como nos últimos anos. No plano europeu, a nossa estratégia tem sido mais seguidista do que alguma vez foi. Na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, os mandatos do atual governo e Presidente da República saldaram-se pela humilhante adesão da Guiné Equatorial. No plano internacional, nada. Não se vê um fio à meada.

Tendo em conta isto, é difícil entender a iniciativa do Presidente da República ao escrever um prefácio aos seus discursos sobre “Diplomacia Presidencial”. Este deveria ser um dos últimos assuntos para o qual Cavaco Silva desejaria chamar a atenção no fim do seu mandato. “Chamar a atenção” é uma maneira de dizer: a leitura do dito prefácio, para lá de uma introdução teórico-constitucional, mostra uma progressão metódica de reunião em reunião tão imaginativa ou interessante como um livro de ponto. Continuar a ler ‘Ir para fora cá dentro’

Passos juiz de si mesmo

É por isso que indigna tanto que Passos tenha para si a sensibilidade que negou aos concidadãos que governa. Razões para a sua demissão não faltaram durante todo o seu mandato. O que não há é razões para que ele possa ser juiz de si mesmo.

Diz muito sobre Pedro Passos Coelho que este tenha pensado dar uma novidade a alguém quando a semana passada nos anunciou que não é “um cidadão perfeito”. Nós já tínhamos desconfiado, e nem foi preciso esperar pela sua biografia fiscal e contributiva.

A questão é: qual deve ser a bitola? A não-perfeição do cidadão é claramente inadequada, porque nos inclui a todos, e porque inclui demasiada coisa. Ninguém consegue ser perfeito e, consequentemente, ninguém tem culpa de ser imperfeito. Há pois algo de inversão moral na forma como Passos Coelho se coloca perante os cidadãos, pretendendo dizer-nos que, porque nós próprios não somos perfeitos, ele é apenas um de nós.

Os comentadores declaram que ele falhou na sua missão de “fechar o assunto”. Continuar a ler ‘Passos juiz de si mesmo’

O nosso tempo

A grande questão que agora temos para responder é: que Europa é a nossa? Uma recapitulação da que nasceu há cem anos, democrática e problemática, instável e inevitável no conflito? Ou qualquer coisa de novo?

Não se comemoram apenas, por estes anos, os cem anos da Iª Guerra Mundial, mas também os duzentos da derrota definitiva de Napoleão, que deu origem à Europa que a Iª Guerra Mundial viria a destruir.

Há duzentos exatamente, Napoleão já tinha sido deposto uma vez e exilado na ilha de Elba, mas fugira de volta para França disposto a retomar o poder aos Bourbons. A 7 de Março de 1815, o exército francês apanhou-o em Grenoble. “Se me querem matar, aqui me têm, o vosso imperador”, terá dito ele. Os soldados mudaram de lado e no dia 21 Napoleão estava de novo em Paris e no trono imperial. Depois disso foram os famosos “Cem Dias”, Waterloo, a derrota final. Napoleão foi mandado para a ilha de Santa Helena e a Europa ficou controlada pelos impérios reunidos no Congresso de Viena. Continuar a ler ‘O nosso tempo’

Sim, a troika morreu

Como lembrei aqui várias vezes, a base legal da troika era reconhecidamente frágil, e a partir de que houvesse um governo disposto a usar esse argumento, ela estaria condenada.

A lista de reformas do governo grego foi entregue — a horas, ao contrário do noticiado. As instituições da UE (Comissão Europeia e Banco Central Europeu) declararam que o documento era um bom ponto de partida e o eurogrupo aprovou-o. Pormenor revelador, o FMI teve uma posição mais negativa, mas isso não influenciou o resultado. Os próximos meses dirão se estou certo, e se a crise do euro começou a acabar.

Tudo isto, contudo, está muito longe da forma como esta atualidade tem sido seguida, pontinho para aqui, pontinho para acolá, como num jogo de pingue-pongue. Vamos a um exemplo: a troika.

Na sua crónica de ontem, João Miguel Tavares critica-me porque, segundo ele, a troika foi apenas substituída pelas “instituições” e, portanto, continua na substância. Prova? Um eurodeputado do Syriza e veterano anti-nazi, Manolis Glezos, declarou que chamar “carne ao peixe” não significava o fim da troika. Camilo Lourenço, no Jornal de Negócios, usa o mesmo argumento de João Miguel Tavares, e proclama derrota para Varoufakis.

Vamos então recuar a 30 de janeiro, em Atenas, Continuar a ler ‘Sim, a troika morreu’

Fim de crise

“Toda a Europa deve um grande agradecimento à razoabilidade e imaginação de Varoufakis. O Armagedão foi evitado. Agora vamos ao trabalho.”

Crise” é um termo médico de origem grega: o momento em que o paciente pode morrer ou melhorar substancialmente e recuperar a saúde. Por esta definição podemos dizer que a passada sexta-feira, com a aprovação de um mero comunicado entre a Grécia e o Eurogrupo, foi o momento em que a crise do euro começou a acabar.

Sei que já foram escritas inúmeras análises sobre este assunto e nenhuma tão taxativamente otimista como esta. Assumo esse risco e veremos daqui a uns meses. Mas primeiro deixem-me fazer alguns alertas.

Dizer que a crise do euro começou a acabar não significa que os nossos problemas crónicos tenham acabado, que o eurogrupo tenha decidido abolir a austeridade, ou até que não continuemos a ter estes momentos angustiantes com assustadora frequência. Já hoje teremos a análise da lista de reformas proposta pelo governo grego, depois os debates nos vários parlamentos do eurogrupo, e daqui a quatro meses repete-se tudo quando acabar este financiamento ao governo grego. Vai continuar a haver incerteza e essa incerteza continuará a gerar notícias de jornal e especulação. Mas o grau dessa incerteza vai progressivamente diminuir.

Por outras palavras, a Europa recuou na sexta um passo do precipício. Continuar a ler ‘Fim de crise’