“Se os partidos encontrassem maneira de se abrir à sociedade, com critérios de escolha públicos e democráticos; se os partidos tivessem regras internas que possibilitassem a autonomia e a liberdade dos seus militantes, e a colaboração com os seus simpatizantes e a sociedade civil; se os partidos reinventassem a forma de ser partido, em suma, talvez a política portuguesa respondesse melhor às evoluções da sociedade.” Porque é que o comentariado político nacional não entendeu a emergência dos independentes como o fenómeno mais importante destas eleições autárquicas? E, de caminho, porque é que a esquerda não entende o potencial de inovação política que esta forma permite no tempo presente? No primeiro dia em que a segunda cidade do país será presidida por um presidente de câmara que não foi eleito por um partido, este acontecimento tem ainda mais significado do que aquele que lhe vai ser atribuído, e merece que se lhe dedique uma crónica inteira. A snobeira do costume levou os comentadores a analisar os independentes segundo um nominalismo que só eles poderiam inventar: havia os “verdadeiros” independentes, os “falsos” independentes, os independentes assim-assim, e Rui Moreira. O júri destas categorias era constituído pelos próprios comentadores e por alguns jornalistas. Ora, não há independentes verdadeiros ou falsos independentes, que não sejam “escrupulosos respeitadores das direções partidárias”, como dizia ontem Menezes. A lei permitiu que os aparelhos partidários não tivessem de ser obedecidos, nem sequer escutados, para quem se achasse capaz de ser candidato à sua freguesia ou concelho — e as pessoas que usam essa possibilidade são independentes, ponto. Os independentes são principalmente um sinal dos bloqueios das direções partidárias, seja a nível nacional, seja nas suas cacicagens locais.