“Se os partidos encontrassem maneira de se abrir à sociedade, com critérios de escolha públicos e democráticos; se os partidos tivessem regras internas que possibilitassem a autonomia e a liberdade dos seus militantes, e a colaboração com os seus simpatizantes e a sociedade civil; se os partidos reinventassem a forma de ser partido, em suma, talvez a política portuguesa respondesse melhor às evoluções da sociedade.” 

Porque é que o comentariado político nacional não entendeu a emergência dos independentes como o fenómeno mais importante destas eleições autárquicas? E, de caminho, porque é que a esquerda não entende o potencial de inovação política que esta forma permite no tempo presente?

No primeiro dia em que a segunda cidade do país será presidida por um presidente de câmara que não foi eleito por um partido, este acontecimento tem ainda mais significado do que aquele que lhe vai ser atribuído, e merece que se lhe dedique uma crónica inteira.

A snobeira do costume levou os comentadores a analisar os independentes segundo um nominalismo que só eles poderiam inventar: havia os “verdadeiros” independentes, os “falsos” independentes, os independentes assim-assim, e Rui Moreira. O júri destas categorias era constituído pelos próprios comentadores e por alguns jornalistas.

Ora, não há independentes verdadeiros ou falsos independentes, que não sejam “escrupulosos respeitadores das direções partidárias”, como dizia ontem Menezes. A lei permitiu que os aparelhos partidários não tivessem de ser obedecidos, nem sequer escutados, para quem se achasse capaz de ser candidato à sua freguesia ou concelho — e as pessoas que usam essa possibilidade são independentes, ponto. Os independentes são principalmente um sinal dos bloqueios das direções partidárias, seja a nível nacional, seja nas suas cacicagens locais. Eu não tenho de gostar dos independentes, ou deixar de gostar, por serem independentes. A questão é antes outra: se os partidos encontrassem maneira de se abrir à sociedade, com critérios de escolha públicos e democráticos; se os partidos tivessem regras internas que possibilitassem a autonomia e a liberdade dos seus militantes, e a colaboração com os seus simpatizantes e a sociedade civil; se os partidos reinventassem a forma de ser partido, em suma, talvez a política portuguesa respondesse melhor às evoluções da sociedade.

Essas novas formas de fazer política não são difíceis de inventar, e até já existem em muitos países. O problema é que os partidos portugueses lhes resistem. E isso serve, de caminho, para responder à segunda pergunta: porque é que a esquerda não entende o potencial de inovação política que é possível nos dias de hoje?

Tomemos, de novo, o exemplo do Porto. Durante anos, a esquerda teve nas mãos a possibilidade de interromper naquela cidade uma transição anunciada do populismo autoritário de Rui Rio para o populismo estouvado de Luís Filipe Menezes. Foi até dito como isso poderia ser feito: através de um debate alargado para a construção de um programa conjunto, e a realização de primárias abertas para escolha de um candidato que fosse apoiado pelos partidos da esquerda que se comprometessem a acompanhar esse processo. Com grande desperdício, numa cidade com uma sociedade civil de esquerda tão variada e forte, a esquerda deixou a direita portuense tomar a iniciativa por ela (ao contrário do que aconteceu no Funchal — que deixarei para a próxima crónica). E agora não adianta apresentar Rui Moreira como uma mera extensão do CDS ou de Rui Rio. Moreira não precisou dos partidos para se candidatar, e não precisa deles para decidir o que fazer a seguir. E esse acontecimento, agora na segunda cidade do país, é uma novidade que deveria finalmente ser entendida.

(Crónica publicada no jornal Público em 30 de Setembro de 2013)

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