Uma guerra na Europa era, para a França, a oportunidade de ajustar contas com a Alemanha e recuperar as províncias perdidas da Alsácia e da Lorena, uma obsessão não-declarada na qual os nacionalistas deviam “pensar o tempo todo, mas nunca falar”, como sintetizara vinte anos antes o político Léon Gambetta. A França, ou pelo menos uma parte dela, ansiava pela guerra. Mas, por causa do caso Henriette Caillaux, não a viu chegar. Em 22 março de 1914 uma senhora elegante, com as mãos agasalhadas dentro de um regalo de pele, entrou no gabinete do diretor do jornal “Le Figaro”, um homem chamado Gaston Calmette. “Sabe por que razão estou aqui?”, perguntou ela. “Não faço ideia”, disse ele. E foi aí que ela mostrou uma das mãos, brandindo um revólver. Ele levou seis tiros e já não passou dessa noite. Ela ficou a aguardar julgamento como a ré mais famosa de França. Acontece que a França estava em campanha eleitoral e ela, Henriette Caillaux, era mulher do mais que provável Primeiro-ministro, Joseph Caillaux, líder do Partido Radical, homem a quem o “Figaro” perseguia publicando as cartas de amor que escrevera à atual mulher quando ainda estava casado com outra.