O inimaginável no poder

Não se responde ao inimaginável com outro inimaginável, mesmo que seja “nosso”. Responde-se ao inimaginável com imaginação, responde-se ao absurdo com realidade, responde-se à estupidez com inteligência, responde-se ao vociferar com ironia, responde-se às banalidades com sentido de humor, ao autoritarismo com pensamento livre. Esta é dos livros. A um colapso financeiro segue-se uma crise económica e social. A crise seguinte é a dos direitos fundamentais. A crise dos direitos fundamentais traz com ela uma crise do estado de direito. Ambas geram uma crise da democracia. Mas é fácil ver como as coisas não ficam por aqui. Aparecem líderes autoritários, que se apresentam como infalíveis, alimentando-se do desespero das pessoas. Quando estes líderes falham procuram um disfarce para o fracasso, o que não é difícil: pode ser o vizinho do lado, que tem o mesmo problema, o povo de baixo, a casta de cima, os desenraízados, os que não foram na onda. É sempre fácil achar alvos. À alta retórica segue-se a provocação, a jogada de risco e finalmente o conflito. As instituições que supostamente seriam os esteios da paz assistiram a isto justificando-se com a sua impotência e, finalmente, quando a vontade política desaparece, desaparecem elas também. Gostaria de dizer que desta vez vai ser diferente. Mas até agora temos avançado nesta lista como num manual de instruções para descobrir a verdadeira espessura do fino verniz da civilização. Nos anos 60 a palavra de ordem era “a imaginação ao poder”.

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