A democracia, a inteligência e a vida dão-nos mais possibilidades do que isto. É preciso começar a viver de acordo com essas possibilidades. Temos andado a viver claramente aquém das nossas possibilidades. A nossa política vive aquém das suas possibilidades democráticas. A nossa democracia vive muito aquém das suas possibilidades políticas — ou seja, das possibilidades de nos dar novos possíveis. Quiseram convencer-nos de que o nosso grande problema foi termos andado vários anos a viver além — acima, para lá — das nossas possibilidades. É mentira, raios! Foi precisamente o contrário que aconteceu: andámos anos e anos a viver aquém das nossas possibilidades enquanto portugueses, enquanto europeus e enquanto cidadãos. Fomos governados abaixo das possibilidades de transparência, de justiça e de progresso. Abaixo das necessidades, é certo. Abaixo do que seria desejável, e é da vida. Abaixo do que merecíamos, presumimos nós. Mas o grande problema é que foi abaixo — aquém — das nossas possibilidades. Isso é que é verdadeiramente trágico. E agravou-se.