A democracia, a inteligência e a vida dão-nos mais possibilidades do que isto. É preciso começar a viver de acordo com essas possibilidades.

Temos andado a viver claramente aquém das nossas possibilidades.

A nossa política vive aquém das suas possibilidades democráticas. A nossa democracia vive muito aquém das suas possibilidades políticas — ou seja, das possibilidades de nos dar novos possíveis.

Quiseram convencer-nos de que o nosso grande problema foi termos andado vários anos a viver além — acima, para lá — das nossas possibilidades. É mentira, raios! Foi precisamente o contrário que aconteceu: andámos anos e anos a viver aquém das nossas possibilidades enquanto portugueses, enquanto europeus e enquanto cidadãos. Fomos governados abaixo das possibilidades de transparência, de justiça e de progresso. Abaixo das necessidades, é certo. Abaixo do que seria desejável, e é da vida. Abaixo do que merecíamos, presumimos nós. Mas o grande problema é que foi abaixo — aquém — das nossas possibilidades. Isso é que é verdadeiramente trágico.

E agravou-se.

Um governo cujo elemento de ligação entre os poderes executivo e legislativo é o Ministro dos Assuntos Parlamentares Miguel Relvas vive aquém das suas possibilidades de decência e dignidade. Um país cujo primeiro-ministro é Pedro Passos Coelho está aquém das suas possibilidades de renovação e progresso — e das nossas possibilidades de aguentar. Um país cuja oposição é feita por partidos que dizem querer a mesma coisa mas nunca querem a mesma coisa juntos, está aquém das possibilidades do entendimento. O nosso debate público está aquém das suas possibilidades de informação, de esclarecimento e de abertura. A nossa justiça está aquém das suas possibilidades, a nossa economia aquém das suas possibilidades, os nossos políticos muito aquém das suas possibilidades.

Por isso há jovens adultos que todos os dias pensam se devem abandonar o país — recusam conformar-se a uma vida vivida sempre aquém das possibilidades. Por isso há tanta gente que ama este país e que teme não conseguir aguentá-lo.

A democracia, a inteligência e a vida dão-nos mais possibilidades do que isto. É preciso começar a viver de acordo com essas possibilidades.

Elevar o grau de exigência sobre a nossa política está dentro das nossas políticas. Trazer uma reforçada cultura cívica para o debate público está nas nossas possibilidades. Integrar pelo desenvolvimento e não pela desvalorização interna está nas nossas possibilidades. Iniciar a democracia europeia e reiniciar a democracia portuguesa está nas nossas possibilidades. Está nas nossas possibilidades, acima de tudo, fazer o correto diagnóstico do que nos está a acontecer — sem o qual nunca recuperaremos.

Isto já não é uma crise. Isto é uma depressão, ou seja, — nas pessoas como nas nações e nas economias, — uma permanente vida mal vivida, prolongadamente aquém das possibilidades que a vida tem.

Nós podemos melhor do que isto.

(Crónica publicada no jornal Público em 25 de Fevereiro de 2013)

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