A resposta está, curiosamente, numa causa genética, e hoje esquecida, da esquerda: a partilha do emprego e a diminuição do tempo do trabalho. Há uns anos estive num debate organizado em que, falando da sustentabilidade da segurança social, o conferencista disse: “se calhar temos de trabalhar mais tempo”. Houve quase um motim no público. Esta experiência repetiu-se há dias num debate; um dos participantes disse o mesmo e duas ou três pessoas saíram imediatamente da sala. O que se passa, julgo eu, é que tanto o primeiro como o segundo orador gostam do que fazem. A hipótese de ter de trabalhar mais uns tempos é contigente, mas não é uma contingência terrível. A maior parte das pessoas, no entanto, detestam aquilo que fazem. Quando não detestam aquilo que fazem, detestam o lugar, os colegas, a forma como é feito, a quantidade de tempo que têm de passar naquilo, o facto de outro alguém (o patrão, a empresa ou, no caso dos funcionários públicos, o estado) ter a faca e o queijo na mão. Mais ainda: estas pessoas descontaram para a segurança social durante 40 anos ou mais. Com os seus descontos, parece-lhes que chega para a reforma deles; quanto ao resto, não suportam nem ouvir falar. Eu — que gosto daquilo que faço — compreendo-os perfeitamente.