Arquivo mensal para May, 2012

Os desingénuos

A zona Euro, ou a União, que praticamente não têm dívidas, podem e devem fazer o papel que antes era dos estados, ou dar condições aos estados para que o voltem a fazer.

A austeridade falhou na Grécia. A austeridade falhou na Irlanda. A austeridade falhou em Portugal. A austeridade falhou na Europa — de acordo com os critérios dos próprios defensores da austeridade. As contas públicas não ficaram mais equilibradas, a confiança não voltou aos mercados, a economia não retomou.

Em face deste quadro, muitos dos austeritários fazem-se de ingénuos: “se alguém soubesse como é possível estimular o crescimento e o emprego, já teria sido feito”, dizem agora, como se estimular o crescimento e o emprego fosse um mistério económico impossível de atingir através de políticas concretas.

Mas não é Continuar a ler ‘Os desingénuos’

Como perder um país

Já sabemos como se perde um país. Agora temos de descobrir como reconstruí-lo.

Considerem-se três notícias recentes:

Um tribunal ordenou que o movimento Precários Inflexíveis apagasse, no seu blogue, comentários que denunciavam práticas ilegais de recrutamento e utilização de mão-de-obra porque a empresa em questão se sentiu “atingida na sua honra”. O tribunal não quis averiguar se os factos relatados por pessoas que diziam ter sido vigarizadas por esta empresa eram reais ou não. Na prática, considerou que a “honra” de uma empresa merecia mais proteção do que as denúncias das vítimas dessa empresa.

O Tribunal da Relação de Lisboa condenou o advogado Ricardo Sá Fernandes por este ter gravado e denunciado uma tentativa de corrupção e ter colaborado com as autoridades na investigação da mesma, dando assim mais proteção ao corruptor do que à descoberta da verdade. Na prática, a mensagem é: Continuar a ler ‘Como perder um país’

As três crises

No plano político, a crise democrática precedeu a crise financeira, mas ambas trouxeram os níveis de confiança dos europeus — nos seus políticos ou simplesmente uns nos outros — para uma fossa profunda da qual não se sairá com pequenos passos. 

Em vários países da União a nossa depressão é já tão profunda, e potencialmente tão prolongada, quanto foi a Grande Depressão. Isto acontece em países pequenos e grandes, tanto dentro quanto fora da zona euro — a Itália e o Reino Unido são dois exemplos. Em países como a Irlanda, a Grécia ou Portugal, os efeitos da crise já se assemelham à devastação económica provocada por um cenário de pagamento de reparações de guerra — sem termos invadido ninguém. E a Espanha vive na antecâmara de um colapso do seu sistema bancário, várias vezes maior do que o tamanho da sua economia, e que o estado espanhol não terá condições de salvar.

Neste quadro, não admira que a ideia dos eurobonds volte à tona, como acontece sempre que a situação é grave. A chanceler Merkel tem tentado tudo — pacotes de resgate, fundos de estabilização, “reperfilamentos” de dívidas, governos tecnocráticos, “cortes de cabelo” para evitar os eurobonds. Mas todos os remendos têm apenas prolongado e piorado a crise. Só a emissão de eurobonds — dívida europeia para a moeda europeia — conseguirá estancar a crise do euro.

Mas nem a emissão de eurobonds permitirá resolver, por si só, a crise económica e social Continuar a ler ‘As três crises’

Espertezas portuguesas

Só a incompetência desta gente nos permitiu perceber que coisas destas se estavam a passar. Só a nossa incompetência nos impedirá de pôr a casa em ordem.

Portugal tem um governo cujo “número dois” liga para um jornal — este jornal — ameaçando publicar anonimamente informações sobre a vida privada de uma jornalista, ou não? Esta é a pergunta essencial a que é preciso responder quanto antes. Se a resposta for afirmativa, o primeiro-ministro deve demitir Miguel Relvas, ponto final parágrafo.

Para responder a esta questão, temos de um lado os comunicados do Conselho de Redação e da Direção do Público, que tratam esta ameaça como questão de facto. Do outro lado, temos emails e documentos enviados pelo ministro Miguel Relvas à entidade reguladora para a comunicação social (ERC), que tratam de outra coisa diferente (a sua opinião sobre a relevância e oportunidade da investigação jornalística em curso, que não vem para o caso). Continuar a ler ‘Espertezas portuguesas’

Deus não quer, François!


A Europa só muda quando a esquerda aprender.

Conheci em tempos um casal em que ambos eram fervorosos crentes na existência de Deus. Bem, talvez mais do que isso: ambos alegavam falar com Deus. As discussões eram engraçadas: “amor, Deus agora não quer que tu toques viola” — “mentira, amor, é Ele que me está a pedir”. As escolhas de restaurantes, de roupa e de meios de locomoção passavam pelo mesmo processo.

Eu ainda admito que se possa falar com Deus; mas nunca acreditei que Deus pudesse responder. Até ontem, quando o avião de François Hollande foi atingido por um relâmpago quando viajava de avião para jantar com Angela Merkel logo a seguir à sua tomada de posse. A comitiva teve de voltar para trás e mudar de aparelho, mas mesmo assim lá foram de charola para Berlim e o encontro lá teve lugar.

Não, não e não! Mas tu não vês, François? Deus não quer! Até Deus, na sua infinita paciência, se pergunta: “mas quando é que a esquerda aprende?” e “quando é que a Europa muda?” Continuar a ler ‘Deus não quer, François!’

O salto no escuro

Na Alemanha, os políticos entretêm-se a fazer declarações incendiárias sobre a saída da Grécia do euro. Isto não é só uma afronta à democracia helénica. É uma afronta a todas as outras democracias europeias, aos tratados da União.

A democracia funcionou na Grécia; os políticos não. Na Alemanha, os políticos continuam a funcionar impiedosamente sem sequer ter em consideração uma ideia da democracia. E isto não pode acabar bem.

Sim, as eleições gregas deram um resultado dificilmente conciliável; mas esse resultado foi um retrato dos próprios eleitores gregos. Cabe aos políticos, se animados ao menos por um pouco de espírito republicano ou patriótico, conseguir fazer qualquer coisa com o resultado que os eleitores lhes deram.

Entretanto, Continuar a ler ‘O salto no escuro’

Ainda falta muito?

O que se passa com esta crise, desde o seu início, é que toda ela é a manifestação das dores de parto de uma outra Europa. E, como talvez dissesse Gramsci, a velha Europa sufoca a nova de uma maneira que talvez não a deixe nascer.

Vai dizer-se hoje que o panorama político da Europa mudou. Mas que quer isso dizer?

Que significa, em França, a vitória de François Hollande? De início, e não é nada pouco, significa uma derrota de Sarkozy, e portanto uma machadada na figura política e quase-mítica a que se chamou Merkozy — o misto da chanceler alemã Merkel com o presidente francês Sarkozy. Mas seria ingénuo pensar que, por si só, isto pudesse mudar a política europeia. A própria realidade económica alemã, que tem beneficiado escandalosamente com as dificuldades dos outros países europeus, contribuiu para criar uma mentalidade teimosa, arrogante e soberba que não é exclusiva de Merkel: qualquer ideia alemã, por estúpida que seja, tem hoje direito ao “amén” europeu, mesmo que ninguém acredite no que diz; qualquer ideia não-alemã, por genial que seja, não passará pela barreira da incredulidade germânica. Não é possível governar a Europa desta maneira, mas não é possível ainda governá-la de outro modo. Continuar a ler ‘Ainda falta muito?’

O fanatismo cega

O sectarismo paga-se caro. Não há maneira de a esquerda aprender isso.

Há duas maneiras de ver as eleições gregas.

Uma é a normal: a direita não tem maioria. A esquerda também não. Outra é a destes tempos: só há dois partidos, o pró-troika (que não tem maioria) e o anti-troika (que também não tem maioria). Excluo destas contas os neonazis anti-alemães, uma espécie que só existe porque ainda não estava tudo inventado.

Antonis Samaras, chefe da Nova Democracia, principal partido pró-troika, demorou menos de um dia a descobrir que não poderia formar governo.

Agora chegou a vez de Alexis Tsipras, o chefe do principal partido anti-troika Continuar a ler ‘O fanatismo cega’

Escrito a 1º de Maio

Mas não foi hoje, 1º de Maio, em frente à caixa do Pingo Doce, que começámos a ser mercadoria. Claro, o governo vendeu-nos como mercadoria quando permitiu que estes patrões usassem o estado como se fosse deles

No século em que o 1º de Maio nasceu, o XIX, duas forças entrecruzadas, uma económica e a outra política, transformavam a sociedade. Na economia, essa força era a indústria, que dependia da criação de uma classe de milhões trabalhadores mais ou menos uniformizados para as suas fábricas, a que depois se chamou proletariado. Na política, com o fim do Antigo Regime, deu-se a descoberta que por debaixo dos grandes impérios europeus, ou fragmentadas em inúmeros feudos, existiam coisas a que se chamou nações.

Mas vinda de trás, do século XVIII, havia uma ideia simples — a de que as pessoas, os homens e as mulheres, não precisavam de uma tutela superior para guiar os seus passos e mereciam ter condições para determinar a sua própria vida. A essa ideia chamou-se depois “emancipação”.

A junção dessas duas forças poderosas e dessa ideia simples deu origem a uma realidade política muito mais criativa e paradoxal do que aquela que conheceríamos durante o século XX.

O 1º de Maio é um bom exemplo disso Continuar a ler ‘Escrito a 1º de Maio’

O aprendiz de feiticeiro

Sarkozy é um daqueles homens que, em vista de uma ideia má, consegue torná-la sempre numa ideia perigosa.

Quando os gregos pensaram em fazer um referendo ao seu segundo pacote de resgate, foi Nicolas Sarkozy, presidente da França, que subiu ao púlpito numa cimeira em Cannes e anunciou, com jeitos de gangster, que se os gregos quisessem democracia não teriam dinheiro.

E foi também ele que, aproveitando a ideia alemã de um novo tratado orçamental e uma objeção britânica irrelevante para o mesmo, forçou para que este tratado fosse feito fora da União, criando assim um precedente que pode voltar para nos atormentar. Não contente, Sarkozy queria esvaziar completamente as instituições comunitárias, pôr fora de jogo o Parlamento Europeu (no que teve um sucesso total) e a Comissão Europeia (no que teve um sucesso quase total); se fosse necessário, deveriam criar-se clones destas instituições para uso privado dos governos da eurozona, ou melhor, do diretório franco-alemão Continuar a ler ‘O aprendiz de feiticeiro’