Arquivo diario para September 7th, 2010

Falhámos nós

Costuma-se dizer que o estado falhou na Casa Pia. Dizer isso é impessoalizar a coisa. Mais do que o estado, quem falhou foi a comunidade — falhámos nós.

À exceção eventual de “sórdido”, não me lembro de uma única palavra adequada para o caso Casa Pia. Qualquer coisa dita é sempre uma coisa desajustada, que não faz justiça, uma mancha verbal só justificada por uma razão: o silêncio seria ainda mais vergonhoso.

De resto, tristeza. Tristeza pelas então crianças e tristeza pela instituição fria que não as protegeu. Tristeza pelos aspectos predatórios que a natureza humana tem. Tristeza pela demora e pela incompetência e pela dúvida, e pela possibilidade de inocentes ficarem também eles manchados. Tristeza porque uma maldade não apaga outra. Tristeza pelas famílias e amigos dos culpados — todos os criminosos têm alguém que gosta deles. Tristeza pelos aproveitadores e oportunistas que estas coisas arrastam.

Nessa lamentável paisagem, distinguem-se aqueles que fizeram o que era sua responsabilidade. Quem tenha escrito ponderando — e não era fácil. Quem tenha investigado sem paixão — e não era fácil. Quem tenha julgado com justiça. Quem tenha defendido um réu acreditando na sua inocência, ou apenas  acreditando que toda a gente tem direito a uma defesa em tribunal. E acima de tudo, quem tenha prestado testemunho verdadeiro, lutando contra a vergonha e a memória e o trauma — e isso deve ter sido o mais difícil de tudo. Não sei quantas pessoas cabem em cada uma destas categorias. Só cada uma delas saberá se foi o seu caso.

O colégio Dona Maria Pia, na Madre Deus, pertencente à Casa Pia, ficava a duzentos metros da minha escola primária em Lisboa. Cruzávamo-nos com os miúdos da Casa Pia na rua e tínhamos em mente os avisos dos nossos professores, dos contínuos, dos nossos pais e irmãos mais velhos. Os miúdos da Casa Pia eram — se pesarmos bem as palavras Continuar a ler ‘Falhámos nós’