Para indignar-se ele não usava o passado. Tinha a atualidade, e não a poupava. Nem ela a ele. A short film about Tony Judt (YouTube) Entender é difícil. Ler os primeiros capítulos de Pós-Guerra — uma História da Europa desde 1945, de Tony Judt (editado em Portugal pelas ed. 70) — é perguntar “que continente é este”? Que continente é este que se matou e deportou desta forma. Numa página qualquer lá estão eles: os milhões de judeus mortos, milhões de ciganos mortos, centenas de milhares deste ou daquele povo (ucranianos, bielorussos, polacos, alemães) mudados de um lugar para o outro. A escrita é quase graciosa, de uma forma perturbante. Pousa sobre coisas que estão nos nossos alicerces sem ocultar nem escavacar nada. Citado ao acaso: “Entre 1939 e 1941 os Nazis escorraçaram 750000 camponeses polacos para Leste e ofereceram a terra esvaziada a alemães”. “Poucas semanas após o fim da Guerra, uma em cada cinco pessoas de Varsóvia sofriam de tuberculose”. “As clínicas e médicos de Viena documentaram que 87000 mulheres foram violadas à passagem do exército vermelho…”. “Na Baviera em 1951, 94 por cento dos juízes e procuradores tinham sido membros do partido Nazi”. Coisas pavorosas. Mas Tony Judt não escreveria tal palavra num livro de história.