O Papa veio a Portugal em pleno ano do centenário da República. À nossa democracia que o recebeu com tanta pompa atirou uma citação da ditadura como uma pedra de mão escondida. Ligo a SIC para ver a transmissão da visita do papa. Sou imediatamente distraído por uma música pseudo-sacra de órgão como som de fundo enquanto a pivot lê as notícias. Mudo para a RTP. A mesma estapafúrdia ideia, mas agora com uma música de coro entre o gregoriano e o new-age. Os repórteres em direto ora descrevem a mecânica do “papamóvel” ora tentam improvisações teológicas mal-amanhadas. Pedro Santana Lopes, em entrevista, perora sobre a “alta craveira intelectual” de Bento XVI. Santana Lopes! Os jogadores do Benfica (do Benfica!) foram entregar uma águia e uma camisola da equipa de futebol ao Papa. Foi pena faltar um fadinho. E alguém lembra que a “sacristia improvisada” da “santa missa” foi no Ministério das Finanças (na situação endividada em que estamos, ninguém pode levar-nos a mal por tentarmos um milagre). Eu não posso ter sonhado isto tudo. Será que já não há nada sagrado?