Mas sim, é possível que a negação chegue. Se o cansaço nos vencer. Era fim de 1995, inícios de 1996, e eu era voluntário na primeira campanha de Jorge Sampaio nas presidenciais, contra Cavaco Silva. Estávamos reunidos numa sala a imaginar quem aceitaria manifestar o seu apoio ao nosso candidato no jornal de campanha. Entre vários telefonemas, lembrámo-nos de ligar a um futebolista internacional da “geração de ouro”. Depois de lhe dizermos ao que vínhamos, a resposta dele foi: “olha, vou dizer-te o mesmo que já disse ao outro candidato: e que ganho eu com isso?” Há gente assim. Que nunca deixa de fazer o seu cálculo de ganhos e perdas e tomar as suas decisões estritamente por esta bitola. Há gente assim em todas as profissões. Nos políticos também. Gente capaz de dizer: “olha lá, tu não me apoiaste, que ganho eu em apoiar-te a ti?”. Talvez tenha mesmo que haver gente assim, não sei. Mas sei que a sorte deles é que o resto da gente não é assim.