Arquivo diario para Novembro 10th, 2008

A cruel verdade

Para ficar apenas em território nacional, a cruel verdade é esta: ficaria muito mal informado sobre o que se estava a passar nos EUA quem lesse em exclusivo Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Alberto Gonçalves, João Miranda ou ouvisse (por exemplo) Nuno Rogeiro. Por outro lado, ficaria bem informado quem lesse o João Rodrigues, o Carlos Santos, o Pedro Magalhães, o Pedro Sales, o João Galamba ou a Palmira Silva (há outros, claro, só não ponho o João Pinto e Castro porque ele apostou um jantar comigo no resultado das eleições e perdeu).

Não precisam de acreditar em mim. Façam a experiência: em alguns casos ficarão a saber de factos e tendências que só semanas ou meses depois encontrarão na imprensa de referência estrangeira. Por outro lado, que apenas um destes nomes tenha pouso regular na imprensa nacional diz-nos muito sobre as razões da famosa crise dos jornais.

Deve-e-haver

No Financial Times de hoje: “Obama can be a Roosevelt and not a Carter“.

No New York Times, artigo do Prémio Nobel da Economia Paul Krugman: “Franklin Delano Obama?“.

Na New Yorker: “As Roosevelt did with the New Deal, Obama has represented different versions of moral leadership to different groups of voters“.

Vale a pena ler qualquer dos três artigos (ainda vou a meio no da New Yorker). Poderia ainda acrescentar este, da secção de negócios do NYT: “75 Years Later, a Nation Hopes for Another F.D.R.“.

A questão é mais de confirmação do que de seguidismo. A minha crónica sobre este assunto (“Roosevelt contra Roosevelt“) é de Agosto, antes do colapso financeiro. Nela descrevia-me como “obamaníaco” precisamente para dar ao leitor espaço de recuo, como quem diz: não podem contar com a minha imparcialidade, mas podem contar com a leitura mais atenta que eu consiga fazer. Acho que foi uma boa promessa. Desde o início, apoiei os candidatos anti-guerra (mais Edwards do que Obama, até) mas desejando que um desistisse para que o outro vencesse as primárias. Achei que Hillary não ganharia as primárias (nem as gerais, mas não temos maneira de confirmar isso), nem mesmo após o escândalo Wright. No meio do Verão, quando McCain ultrapassou Obama em algumas sondagens, disse que a nomeação de Sarah Palin destruiria o que restava da campanha republicana (foi a verdade; Sarah Palin puxou McCain para baixo nas sondagens junto de independentes; todos os jornais de referência, incluindo conservadores, que apoiaram Obama citaram a escolha de Palin como momento decisivo). E, antes da falência da Lehman Brothers e do Pacote Paulson, disse que o susto ia fazer os americanos lembrarem-se da Grande Depressão e procurar por um Roosevelt (não um Kennedy nem um Martin Luther King, que eram as comparações correntes que se faziam em relação a Obama).

Na minha crónica de hoje (que estará aqui mais tarde) pergunto como podem os obamacépticos querer comentar as ilusões dos outros quando não fizeram o seu trabalho de casa, nem antes nem depois das eleições. Quem os lesse não saberia nada sobre a crise financeira, julgaria que ela não teria hipótese de contaminar a economia real, consideraria que Sarah Palin foi uma boa escolha por John McCain (não foi; nem sequer em termos oportunistas). Quem subestimou Obama até agora, com a importância que ele já teve e tem, deseja que continuemos a subestimar Obama depois das eleições. Pode ser que até venham a ter razão. Mas que provas de confiança nos podem dar, quando nem sequer sabem fazer o seu deve-e-haver dos últimos meses?

Parem as máquinas

Morreu Miriam Makeba, após um concerto.

Pedro Magalhães um – Alberto Gonçalves menos que zero

Aqui:

Segundo Alberto Gonçalves, “Obama concentrou na quase totalidade o voto preto, avalanche que nem a tradicional predilecção das minorias pelo partido democrático justifica. Com a eleição de Obama, insusceptível de repetição noutra democracia, o racismo dos brancos americanos tornou-se, pelo menos oficialmente, uma memória triste. O racismo dos pretos americanos é, se calhar, uma questão actual. A que não convém aludir.

Suponho que isto quer dizer que o facto de John Kerry ter captado “apenas” 88% do voto dos negros que participaram na eleição em 2004 e Obama ter captado 95% do mesmo voto em 2008 deverá ser visto como expressão do “racismo dos pretos americanos”. Nem imagino como Alberto Gonçalves interpretará o facto de, em 2008, 62% do voto asiático ter ido para Obama, contra 56% do mesmo voto para Kerry em 2004. Ou o facto de 67% do voto hispânico ter ido para Obama, contra apenas 53% do mesmo voto ter ido para Kerry em 2004. Só pode ser, claro, o anti-branquismo dos castanhos e dos amarelos. Realmente, sobre questões de “raça” e voto, não tem sido fácil dar uma para a caixa.

Adenda — Ainda há isto: “Barack Obama performed 9 points better than John Kerry among urban whites“. É o terrível racismo anti-branco dos brancos urbanos…