Arquivo diario para Novembro 5th, 2008

Fotos da festa: quando yes we can se transformou em yes we did

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A bolha convencional

Nos próximos dias esperam-se as opiniões de quem já tinha visto isto tudo há muito tempo, apesar de terem apoiado Bush para lá do razoável, de terem prognosticado que Mitt Romney ia vencer, que Hillary Clinton tinha o partido na mão, que John McCain era um candidato fabuloso, que Sarah Palin foi uma escolha brilhante (e que a Guerra do Iraque ia durar pouco, e que a bolha financeira não ia alastrar para a economia real, e, e — a lista poderia continuar). Como têm acertado muitas vezes nos últimos anos, tentarão convencer-nos de que a opinião convencional é a opinião “responsável”, que Obama ganhou ao centro, que pouca coisa vai mudar, e de que o que sucedeu não obriga a nenhum repensar do panorama político.

De passagem, farão a concessão de que foi um dia histórico, principalmente por causa da cor de pele de Obama. Infelizmente, trata-se de gente que não reconheceriam um dia histórico nem que este lhes caísse em cima da cabeça. O mundo da opinião convencional é como uma bolha, feita de triangulações e bissectrizes e medianas, como se fosse preciso dar a mesma credibilidade a um discurso absurdo como a um discurso articulado, ao irrealismo como ao realismo, à mentira como à verdade. Foi (por exemplo) neste mundo, nesta bolha do pensamento convencional, que Sarah Palin foi levada a sério.

Mas a realidade não é 50/50. E este dia foi histórico por muito mais razões do que pela cor de pele de Obama. Dou dois exemplos.

Esta eleição marca o momento em que o eleitorado americano basculou. Os republicanos têm uma base homogénea, que se tornou minoritária, e vão passar por uma enorme travessia no deserto para arranjar maneira de crescer a partir daí, uma vez que alienaram tudo o que tinham à volta da sua própria bolha branca e conservadora. A coligação de minorias dos democratas (minorias étnicas e raciais, pobres e universitários, gays e operários, gente sem seguro de saúde e empresários de Sillicon Valley) tornou-se uma maioria.

Como se tornou uma maioria? Através de uma coisa que vemos raramente em política. Barack Obama conseguiu convencer essas várias minorias, através de um novo discurso político que tivesse em conta os imperativos morais do progressismo americano clássico, que estavam todos juntos no mesmo barco. A raiz do seu talento político está aí.

Segundo ponto: é preciso distinguir “ganhar o centro” de “ganhar ao centro”. Sem ganhar o centro não se ganham eleições. Mas a estratégia não tem de ser forçosamente jogando ao centro.

(sem mais bateria no computador, voltarei a este ponto mais tarde).

Os miúdos do bairro

 

Eis o memorial a que me refiro na crónica de hoje, no Público, relembrando os jovens assassinados por guerras de gangues, balas perdidas e uso generalizado de armas de fogo nas wild-wild hundreds do South SIde de Chicago.

A imprensa anda atrás dos blogs

A imprensa, a televisão e a rádio tradicionais não reconheceriam um dia histórico nem que ele lhes caísse em cima. Depois admiram-se por estarem em crise.

A coisa é assim

Parece-me que Obama tem neste momento 195 votos eleitorais.  Com a Califórnia, chega a 250. Com o Washington state, Oregon, New Mexico e carqueja, está decidido. Obama ganha.

Sr. South Side ou Dr. Hyde Park

 

As pessoas aqui estão saturadas, impacientes e desconfiadas. É o que me dizem. Mas não as ouço dizer que estão optimistas. Saturadas de eleições e política, sim. Há dois anos que isto dura e há vários meses que não se fala de outra coisa. Impacientes, também. As eleições são já amanhã, para o melhor ou o pior. E há uma porção demasiado grande de gente desconfiada que pensa que as duas últimas presidenciais foram fraudulentas, e que lhes vão roubar esta eleição também, e que ainda antes do seu candidato ganhar já há provavelmente um maluco, ou mais do que um, que pensa assassiná-lo. Os menos paranóicos sabem, mesmo assim, que o próximo presidente tem um país de rastos para governar: entrando numa recessão, sempre com uma guerra ainda por ganhar e a outra já perdida, e pouco respeitado pelo mundo fora. Tanta gente desconfiada não pode ser saudável para uma democracia.

 

Agora, optimistas — não. Ninguém o admite. Pelas boas regras do jornalismo, tentei e não consegui que me confessassem o optimismo deles. Não tenho nenhuma fonte, nem uma citação, mas eu sei. Eles estão optimistas. O mais próximo a que cheguei foi conversando com o mecânico da Avenida Halstead, esquina com a rua 100, na empobrecida Zona Sul de Chicago. “Não estou optimista”, disse com um ar sério mas sabendo que estava a mentir: “eu não acho que o Obama deve ganhar — acho que ele TEM de ganhar!”

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