Fragmentos de uma relação amorosa

Bernardo Pires de Lima diz que os europeus adoram Obama mas não é certo que Obama adore os europeus. E daí? Uma resposta possível seria o que aqui diz Ivan Nunes: O que se tem notado menos é que esta simpatia dos europeus por Obama, este encantamento, esta mania, revela muita vontade de gostar da América. Porque Obama, seja lá aquilo que venha a ser, é americano – como indivíduo, como personalidade, como imagem, como história de vida. Não é nem podia ser europeu. Se é amor, não é narcisista. Ora, é muita vontade de gostar da América, depois de anos maus. Mas aqueles mesmos que andaram a distribuir acusações de antiamericanismo («primário», sempre «primário») são os que agora fustigam a credulidade da esquerda e o seu entusiasmo em relação a Obama. Ou seja: afinal os europeus eram muito mais anti-Bush (ou, em alguns casos, “anti-imperalistas”) do que anti-americanos. Foi o que a esquerda andou a dizer desde, pelo menos, a Guerra do Iraque. Tínhamos razão. Quando há razões para gostar da América, os europeus rendem-se. Eu acho normal.

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Arrependimentos e lamentações

A crónica de hoje no Público (que estará aqui mais tarde) é parcialmente dedicada a um tema muito glosado pela direita nos últimos tempos: a hipotética frustração que sentirão os apoiantes de Obama um dia, quando ele fizer alguma coisa que não nos agrade. Devo dizer que é um pensamento com que posso viver muito bem, e se esse é o melhor consolo que se pode dar aos apoiantes de Bush/McCain agora, pois sirvam-se à vontade. Mas isto relaciona-se com um aspecto geral da política, e até da vida. Vamos sempre arrepender-nos de algo. Se apoiarmos Obama e ele ganhar, claro. Com as coisas que ele fizer, certo. Mas, uma vez que somos apoiantes de Obama, arrepender-nos-íamos mesmo era se McCain ganhasse. Com o tempo, essa diferença há-de ir-se esbatendo, mas para sabermos que ela existe e é importante basta pensarmos nos resultados de 2000, se Gore tivesse sido presidente em vez de Bush. Para os adversários de Bush os oitos anos que passaram foram de recontagem mental, hipóteses e verbos no condicional — e se isto, e se aquilo, etc. Se pelo menos se desfez a ideia de que quase não havia diferenças entre os dois resultados, não existe maneira de provar como não teria sido. Muita gente sugere que Al Gore, mais coisa menos coisa, teria vivido os mesmos acontecimentos — o 11 de Setembro, o furacão Katrina — e que talvez não tivesse reagido de forma muito dissemelhante à de Bush. Devo conceder que se Al Gore não tivesse invadido, torturado e espiado os seus próprios cidadãos teria certamente feito algo que desagradaria ao resto do mundo, até porque o resto do mundo não tem forçosamente de gostar de tudo o que uma super-potência faz. Mas este é o problema que se coloca à acção política em geral. O que está em avaliação é o que acontece e raramente o que não aconteceu e poderia ter acontecido. Só em ocasiões muito singulares uma comparação permite enfatizar o que não ocorreu — por exemplo, quando a moeda de um país vizinho está em queda livre e a nossa não. Na maioria dos casos as coisas não são assim. Quando um furacão chega e os diques aguentam, isso é mera gestão competente. Não se diz que o governante foi um génio ou salvou a cidade. Se a inspecção alimentar é cuidadosa, ninguém conta as intoxicações que não ocorreram. É mais fácil apontar casos de excesso de burocracia e regulações absurdas do que fazer uma notícia com acidentes de trabalho que não aconteceram. Uma dezena de jovens muçulmanos que põe uma bomba em Londres tem mais importância do que cem mil que entram para a faculdade, conseguem um emprego ou arranjam namorada. O que não aconteceu em geral não nos ocupa. O que acontece frequentemente ocupa-nos todos os dias individualmente mas não é detectado pelo radar colectivo. Vivemos assim num estado de excepção jornalística permanente — mas isto já é outra história.

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