Continua a não haver quem fale pelos 500 milhões de cidadãos europeus. E eu já ficaria contente que houvesse alguém a falar pelos 10 milhões de portugueses. A revista alemã Der Spiegel publicou há dias um interessante artigo sobre Merkel, Sarkozy, e a vontade de protagonismo. O seu título era um pouco cruel — “como manipular os anões políticos da Europa” —; o pior é que não havia como lhe escapar. O texto é escrito a partir da perspetiva norte-americana, criteriosamente ilustrado com diversos acontecimentos dos últimos meses e pormenorizadamente documentado. (Como é agora evidente, a Der Spiegel recorreu aos célebres “telegramas” da wikileaks; mas notemos que estamos a falar dos tolinhos dos jornalistas alemães, que são muitos menos espertos do que os seus homólogos portugueses. Os jornalistas e comentadores portugueses não precisam de analisar estes documentos; eles já sabem tudo, conhecem tudo e estão convencidos — como os fanfarrões nos bares — de que têm tudo debaixo de olho.) Diz a Der Spiegel: “A competição entre Merkel, Sarkozy e outros significa que se torna fácil para Washington pôr os líderes da União Europeia uns contra os outros”, e continua, “pressões, pedidos, diligências, dividir para reinar — os telegramas permitem ver como lidam os EUA com a Europa”. Quanto à Alta-Representante Ashton, os telegramas permitem concluir que os americanos a vêem simplesmente como “uma candidata saída de intrigas internas”, o que demonstra que — por isso é tão interessante lê-los — os diplomatas americanos continuam observadores perspicazes. Uns meses andados, a União Europeia continua presa das decisões desse estranha criatura bicéfala, vaidosa, teimosa, e em última análise irresponsável, que é o par Merkel-Sarkozy.