20140626-081431.jpg À entrada e à saída, uma placa em francês e inglês, que diz “Souviens-toi / Remember”. Lembra-te. Recorda. Foi só há 70 anos.

Há uma semana comemorou-se no nosso país o Dia de Portugal. Permitam-me falar hoje de um outro 10 de junho.

Há setenta anos, e uma semana, uma divisão do exército nazi chamada “Das Reich” subia pelo interior da França, chamada a reforçar as linhas contra o desembarque aliado nas praias da Normandia. A Resistência e a sua guerrilha, o “maquis”, atrasavam-lhe a progressão. A “Das Reich” respondia com atos punitivos. Na véspera, a 9 de junho, enforcara 99 franceses na aldeia de Tulle, no Limousin. No dia 10 de junho chegou à aldeia de Oradour-sur-Glane, um pouco mais a norte.

Chamar aldeia a Oradour-sur-Glane pode ser enganador. Mesmo em 1944, a sua realidade não evocaria nada da pobreza das aldeias portuguesas. Embora ali morassem poucas centenas de pessoas, cerca de um milhar e meio vinha das quintas vizinhas fazer comércio. Oradour-sur-Glane tinha vários cafés, hotel, solicitador, seguradora, duas oficinas mecânicas, uma trintena de automóveis. Quase todas as casas tinham máquina de costura, fogão a lenha, algumas até fogão a gás. Mais surpreendente, a aldeia tinha uma linha de elétrico, que a ligava à capital provincial, Limoges, e de onde vinham regularmente turistas para fazer piqueniques à beira-rio. Por comparação, seria talvez como Colares, também já então ligada a Sintra por uma linha de elétrico.

Nesse dia de há setenta anos, por volta das duas da tarde, o exército nazi rodeou a aldeia e reuniu toda a população na praça principal.

Poucos habitantes fugiram, por confiarem na explicação que lhes foi dada: era apenas um controle de rotina. Foram separadas as mulheres e as crianças dos homens. Estes foram distribuídos por vários lugares, uma centena numa granja, grupos menores aqui e ali. As mulheres e as crianças foram levadas para a igreja.

Até às seis da tarde, os soldados alemães (e alguns franceses, do antigo território da Alsácia-Lorena, recrutados à força) mataram metodicamente 647 pessoas, a tiro de metralhadora, pelo fogo e pela asfixia. Escaparam quatro homens da granja, uma mulher da igreja, e dois miúdos que tinham fugido quando as tropas chegaram (um deles era um dos quarenta refugiados franceses, também da Alsácia-Lorena, que tinham sido recebidos na aldeia).

Isto aconteceu noutros lugares, em Itália ou na Checoslováquia. O que torna Oradour-sur-Glane diferente é que quando a aldeia foi visitada por De Gaulle após a libertação, este decidiu mantê-la em ruínas e vazia, como memorial. E os sobreviventes levaram a opção a peito, até durante mais de uma década em que cortaram relações com o estado francês, por causa de uma amnistia votada pela Assembleia Nacional para os soldados alsacianos que tinham participado no massacre. Hoje é possível visitar Oradour esvaziada, ver os carros enferrujados, as máquinas de costura nos parapeitos da janela, saber onde era a dentista (uma mulher) ou a padaria. Dentro da igreja, um outro memorial, que já lá estava, aos mortos da Iª Guerra Mundial, que vingaram os mortos de 1870. Como numa boneca russa: tragédias que contêm tragédias.

À entrada e à saída, uma placa em francês e inglês, que diz “Souviens-toi / Remember”. Lembra-te. Recorda. Foi só há 70 anos. Não foi a civilização nem o conforto material que o impediu. O que pode este continente? Até onde chega?

(Crónica publicada no jornal Público em 18 de Junho de 2014)

8 thoughts to “Souviens-toi — Remember

  • mm

    Em tempos ‘tão esquecidos’, fazendo tudo, aliás, por não lembrar, re-avaliar e …fazer conforme, como se diz na minha terra!

    Mas não! A Europa dos cérebros é toda nervos, estupidez e discriminação, com uma ‘narrativa e comportamento do Norte em relação ao Sul perante a realeza dos nºs, próprios e com mts zeros’

    …dignos do anteceder duma guerra!

    Mas não, não é o caso! A guerra está em curso!

    Com a devida e ignominiosa postura de olhar e assobiar p’ró lado, a cabeça n’areia ou pra inglês ver, só hipocrisia, espelho meu, NENHUM valor, democrático ou outro q não o do pilim e pedigree…

    JE FEFUSE et J’ACUSE cette Europa!!!

  • mm

    Olá…Rui.

    N tendo 1 sítio no Livre para escrever assim, para quem n tem nada senão mail e sabe pouco d’isto,

    aproveito para dar testemunho de uma coisa linda (ainda por cima num tempo d’horrores), q tem sido o Livre e, em particular, as 1ªs sessões dos Círculos Temáticos (CT), hoje e amanhã das 11h às 18h (1h para almoço, 10/15m entre sessões),

    ao mesmo tempo q dialogo com Teresa Sá q disse (n posso ser + rigorosa, pq emprestei os meus apontamentos ao João (do CT ‘Crise’), q precisava do q as pessoas tinham dito nesse CT), acertadamente em relação ao alerta para os perigos (já aí) da ‘exposição absoluta’ e ‘de falar para todo o mundo’ (credo!)que nos pode levar ‘à cultura do espectáculo’ (tb já aí), por causa, referia, ….do streaming a q o Livre se está habituando!

    Se há uma coisa

  • mm

    Foi mandado sem querer…

    O q estava dizendo é q, se há UMA coisa q a sesssão d’hoje NÃO FOI, foi 1 ‘group sesson’…, terapêutica (por acaso até foi, ih) ou outra!

    Por mi, confesso, logo fugi dele e da 1ª fila, mas pq é meu feitio e nunca + pensei no assunto.

    O QUE POSSO DIZER, pessoal e subjectivamente, tendo em conta o todo…,

    …é q senti e vivi (outros confirmarão ou infirmarão) foi um ambiente de ‘recolhimento’ e abertura, genuinidade e suave firmeza (excepto eu) nas dúvidas, questões e até soluções propostas [e…acho, estivemos ‘a falar uns com os outros’ e não p’ra todo o mundo!]

    …mas claro, ainda há mt não saber, tentar, tactear, titubear (não nas convicções) e ir fazendo/aprendendo e lutando, q ela será brava luta, (n falando da ‘material’, p’ra começar) e como agradeço e admiro todos qts estão ‘no pôr de pé’, não de armas e bagagens, mas com alma, intelecto, generosidade e espírito, seriamente!

    Mais resumido, este será o ponto de ordem à mesa (ainda existe?) q gostaria de poder fazer amanhã de manhã, antes da sessão, se me for permitido.

  • mm

    Dois acertos:

    No último texto deve ler-se ”…o q senti e vivi…”.

    Qt aos q ‘põem de pé’ este projecto… antes, durante e dp de tudo o q eu disse… também o corpinho, claro!

    Bem hajam…

  • mm

    Em paz e sem querer entrar em polémica com Teresa Sá,

    espero que haja, possíveis e desejáveis,

    além do livre pensamento e crítica, no Livre (e nas pessoas)

    os (também) bem-vindos humor, graça (entendível a vários ‘níveis) ….e a liberdade DO CORPO!

    Q NADA TEM A VER com espectáculo (honni soit qui mal y pense!)…!

  • mm

    Só para rematar, Teresa Sá:

    Como não devemos sair do humano (antes, como democracia, ‘aprofundá-lo’) q somos, presumindo-se, qtª vez, deus, besta ou anjo, o q é altamente contraproducente…

    e, afinal, o q andam cá a fazer a filosofia e a ciência (e n só), senão ‘denunciar’, desconstruir e (in)validar o q somos …poços de preconceitos!?…

  • mm

    E para ‘terminar’ a argumentação (atabalhoada, é certo, e nervosa, além de pressionada por alguém me querer tirar o microfone), no 2º e último dia dos CT (menos lírico), no caso, a ‘Europa’ (e tb na sequência do facto de uma comissária europeia, n sei qual, mas importante presumo, ter de ser 1 mulher… e aí a Europa ser mt politicamente correcta e nem sequer é p’ra inglês ver como eu disse, é p’ró mundo inteiro observar, e é tão grande a cegueira q a Alemanha, como disse e mostrou o João, até contra ela age!)

    E q MAIS UMA VEZ hipócrita e interesseira, de pilim, verniz, palavra e pedigree se rege a ansiosa EUROPA…!

    Sendo o quadro perfeito e análogo ao q diria, do hospital psiquiátrico de Zurique, Jung ao visitá-lo, poder e parece estar a ver a Cidade/Suíça em miniatura…

    E de como também(penso q como e com Reich) serviria para outra ‘analogia’, a da ‘imagem’ q e da qual a relação amorosa/matrimonial seria reflexo, senão espelho, das forças de poder (es)exteriores, materiais, políticas, sexuais e espirituais…

    …para chegar ‘à analogia’ q queria, a da e q a Europa dá (e é, quem tem poder) de si mesma e PARA OS SEUS, na sua casa, numa guerra fina hipócrita e tórrida, destruindo países e milhões de vidas de co-cidadãos europeus…

    …o pior do mundo parece espelhar esta Europa!

    E mt falta de vergonha na cara… q nem sequer tem por acaso!

    Verniz e palavreado definitivamente estalados, des-carnados, fossilizados, mentirosos e soterrados!

    Bem, como eu ia e queria dizer, acho q a Europa (q sonho…) deveria ter, como a Suécia, eterno paraíso, q pune e expulsa todos os crimes cometidos no país ou fora dele (aqui, vai-se e levam-se as meninas à Guiné…), de honra, excisão do clitóris e quejandos, crimes holocausticamente infames, que se praticam livre e impunemente em solo pátrio e europeu!!!

    Deixados em guetos, pívia de diálogo e esforço de integração (e Portugal é dos melhores) para com os seus imigrantes (de q’a Europa precisa como de pão p’rá boca), q até dão dinheiro ao orçamento do estado,

    …e quem fica e está lá está dentro, os + fracos e, já se sabe, dp do trabalhador e do preto …a mullher (p’lo menos cá, a violência ‘geral’ diminuíu, excepto a doméstica), pois claro!

    deixada à sua (deles) sorte, nomeadamente a dificuldade do ensino a ciganos, por ex., e a quase impossibilidade das raparigas, mesmo q queiram, estudarem mais do q o básico antigo (e é qd é) ou terem uma profissão, COMO SE NÃO HOUVESSE LEIS E DECÊNCIA NESTE PAÍS E NO ESPÍRITO EUROPEU (além de falta de coluna vertebral p’ra defender sequer os seus ‘valores'(?!) no seu solo, ao menos.

    E NÃO DEIXAR q a tradição (dos outros) siga o seu curso, inexorável, CRUEL E ATÁVICA, nesta Europa, de Cristo fosse!

    O Q EU ACHO E QUERO DIZER, é o seguinte:

    1- Deve haver 1 LEI COMUNITÁRIA para crimes cometidos ou não no seu território, a elencar, nomeadamente crimes de honra, excisão do clitóris ou outra formas de servidão criminosas, n só na nossa lei, como NO NOSSO ESPÍRITO!

    (ex: um crime q há relativamente poucos anos abalou, precisamente a Suécia, creio, qd um pai matou a filha por namorar com um sueco (ou do país em q estava, no Norte da Europa)

    2- Ou seja, deve dizer-se A TODOS os q querem residir no(s) nosso(s) país(es), ao nível europeu E EM CADA UM DOS PAÍSES da UE, o seguinte:

    2.1- Aqui, no nosso país e no espaço europeu, É CRIME isto e isto e isto…e aquilo….

    2.2- PORTANTO, se quer cá viver e se dp de cá chegar, tentar ou cometer qqs desses crimes (tipificados) e os q se perdem no banal crime comum, seja no nosso território ou em qq outro, será preso e eventualmente expulso

    2.3- Aqui, no nosso país e no espaço europeu, TODAS AS RAPARIGAS E RAPAZES, n importa a proveniência, origem ou etnia, TEM DE RESPEITAR A LEI, q é INEGOCIÁVEL.

    2.4- Se quer, quer e mt bem!

    2.5- Se não quer, não quer e…tudo bem, na mesma.

    3-[Não é argumento, eu sei (e ‘a coisa’ é intínseca e inegociável)

    3.1- Mas…, valha-nos deus, zeus ou alá!,

    …eles qd vêm para cá querem TODA A LIBERDADE q, qd lá chegamos

    nós, mulheres sobretudo, temos de pôr o rabinho entre as pernas e pôr o lencinho até ao quêxo, e n a burca, pq somos estrangeiras.

    Vigiadas e proibidas.

    Diminuídas em tudo, direitos e dignidade…. E BICO CALADO!

    4- Era isto q eu queria dizer a todos, n só naquela sala, mas de todas as sortes e lugares

    4.1- Pq acho q o multiculturalismo vigente é aquilo q descrevi (dura e caricaturalmente?) antes

    4.2- E como, para mim,tratar o outro com dignidade e igualdade

    NÃO É à partida, des-considerá-lo ou paternalísticamente deixar em gueto e roda livre as comunidades e o q lá quiserem fazer…

    4.3. Prefiro a INTERCULTURALIDADE, em q 2 ou mais culturas

    – dialogam, ouvintes uma da outra, compassivas, fontal e francamente lidando e questionando (-se e ao outro) sobre a questão dos VALORES E PRÁTICAS, além dos FUNDAMENTOS PARA TAL n existentes numa sociedade livre e aberta (mesmo nos países teocráticos quase, em q a maior parte da população é jovem de menos de 35 anos… contraponto de nós, europeus, cada vez mais velhadas)

    – e não têm medo de lutar entusiasmados(mas não ‘fundamentalistas’, como todos podemos sê-lo e de mts maneiras…)

    — De igual para igual

    (como n acontece no distante, hipócrita e condescendente ‘multiculturalismo’ vigente, já falado)

    Porem (-se) em confronto, leais ao espiritual e intelectualmente honesto, p’lo menos

    — e n terem medo disso!!!

    —e n se matarem, porra!

    mas converarem, verem e fazerem ….ANTES Q SEJA TARDE!

    E, já agora, a burca inteira, de cara tapada, NÃO É 1 questão de moda (n sejamos anjinhos), MAS DE SEGURANÇA! E nós até temos a aparelhagem de q precisamos. E isto N É NENHUMA GUERRA NEM CONTRA OS IMGRANTES ou coisa parecida, q eu os quero mt bem-vidos… com conta peso e medida, claro está. É a vida!]

  • mm

    Na continuação do texto anterior e para rematá-lo, digamos, gostaria de acrecentar e frisar o seguinte:

    1- Contrariamente ao q um ex-alKaeda(?), ao lado do José Rodrigues (o dos livros) disse, a e na Europa, N SE MUDAM os valores …por moda! NÃO!

    1.1- É precisamente pq a Europa (se) pensa e questiona, à luz duma humanidade comum, para além das diferenças, q ela PÕE EM CAUSA os PODERES e SABERES e REGRAS, q lhe são transmitidos ou impostas, através da in-teligência, sensibilidade e reflexão q ela questiona a JUSTEZA e a JUSTIÇA das coisas…!

    1.2- E sim, mts homens e mulheres morreram (dando a vida por e n matando por…) por ideais e realidades, no espaço e no tempo, MAIS justas, equânimes e solidárias.

    2- A democracia em lado nenhum se faz por decreto ou à força [mt menos invadindo, sem sequer conhecer o mínimo da cultura e tesouros do país q se ataca —bastariam 2 tanquezitos para guardar (e respeitar, coisa de q n são capazes) o museu DA HUMANIDADE de Bagdat…, por ex.], mas N PODE ser abandonada qd já existe…!

    2.1- Qd se tem ‘o privilégio’ de viver numa parte do mundo + igualitária e teoricamente democrática, onde é possível exigir modelos e práticas ‘+ avançados’ em termos de igualdade e direitos,

    2.2- …é afrontoso e iníquo permitirmos, na nossa casa, na nossa terra e europeia, q se continuem a praticar crimes (e mentalidades) abjectas, ainda por cima à boleia de preceitos tradicionais, intocáveis, religiosos, sagrados…

    2.3- Expandir e melhorar a democracia em Portugal, na Europa e no mundo, como o Livre quer… COMEÇA por fazer ver,valer, cumprir e fazer cumprir o q nos custou mt a conquistar, obter e manter …e de q fazemos alarde, a começar AQUI

    2.4- …e, por isso, deveria haver uma preocupação e interesse, d’abord (aí é q a porca torce o rabo…!), para fazer valer os seus valores, tão apregoados

    2.5- e, assim, expandir verdadeiramente, espaços e práticas de liberdade, democracia e legalidade q desse ….’aos outro(a)s’ a possibilidade de, aqui, p’lo menos, poderem fugir (é o termo!) de tradições, imposições e perseguições atávicas e iníquas e CONTRA O INDIVÍDUO e ‘o espírito’ q queremos q seja o nosso, para a nossa terra, casa e para nós próprios!

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