É ridícula a ideia de que um dos candidatos que foram a eleições tenha menos legitimidade do que um desconhecido escolhido às escondidas dos cidadãos — qualquer que seja o argumento utilizado.

Está virada do avesso a política portuguesa. Para uma parte dos partidos que reclamam eleições antecipadas (a exceção é o PCP) nada interessa menos do que eleições antecipadas agora. Sendo assim, vão continuando a pedi-las, mas cruzando os dedos para que o desejo não se realize. Quanto ao governo, que sempre disse querer chegar ao fim do mandato, deu agora uma grande pressão a Pedro Passos Coelho e Paulo Portas para declarar uma crise política e ir a eleições numa situação que lhes permita continuar no governo. Ainda mais do que o costume, os principais atores políticos passam uma parte do tempo dizendo o contrário do que desejam.

A novidade é os riscos políticos que eles estão dispostos a correr. Pedro Passos Coelho faz um ataque frontal ao Tribunal Constitucional e estimula a sua maioria parlamentar a fazer o mesmo, atropelando o princípio da separação de poderes. Como num mau filme, o programa da troika, cujo fim foi celebrado com pompa e champanhe no dia 17 de maio, ainda sobrevive: a 12ª avaliação ainda não está fechada, a última tranche não pode chegar, e o governo pretende usar esse factos para amplificar a sua crise com o Tribunal Constitucional. E por detrás de tudo isto há, é claro, a situação de indefinição no maior partido da oposição, que serve de tentação aos partidos do governo.

Bem, se procuravam uma boa maneira de desacreditar o sistema político-partidário, encontraram-na. Se querem apresentar-se a eleições deixando patente aos portugueses que os seus governantes não passam de uns tipos manhosos, o caminho é este. Se tudo vale — uma guerra entre órgãos de soberania, o atropelo ao estado de direito, o descrédito dos partidos — a resposta não pode certamente ser bonita.

Entretanto, em Londres e Berlim

testa-se outra forma de brincar com a vida das pessoas — no caso, de 500 milhões de cidadãos.

Durante anos, se houve queixa contra a União Europeia que fez sentido foi a de que as suas instituições não eram democráticas. Durante anos, não houve quase um discurso de um eurodeputado britânico em que o Presidente da Comissão Europeia não fosse zombado por não ter sido eleito.

Os europeus votaram em eleições há duas semanas. Desta vez, além de candidatos a deputados ao Parlamento Europeu, havia candidatos à Presidência da Comissão Europeia. As maiores famílias políticas europeias aceitaram que as eleições europeias tivessem um impacto na escolha do presidente da Comissão. Houve debates e apresentação de programas, os candidatos fizeram campanha um pouco por todo o lado — incluindo no nosso país.

E agora o primeiro-ministro britânico, David Cameron, quer bloquear a possibilidade de que o candidato que recolheu mais votos (Jean-Claude Juncker, do PPE) venha sequer a ser proposto para a presidência da Comissão Europeia. E não parece que aceitasse qualquer dos outros candidatos. A exigência de Cameron, que tenta a todo o transe convencer Merkel, é a de que o presidente da Comissão seja escolhido à moda antiga, num negócio de bastidores.

É ridícula a ideia de que um dos candidatos que foram a eleições tenha menos legitimidade do que um desconhecido escolhido às escondidas dos cidadãos — qualquer que seja o argumento utilizado.

Mais uma vez: se procuravam uma maneira de destruir a União Europeia, encontraram-na. Parabéns.

(Crónica publicada no jornal Público em 9 de Junho de 2014)

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