Golgotha – Edvard Munch (1900)

Aquilo que eu vi, portanto, — e viu quem quis ver — é um indício do que poderá ser a Europa após 2014. A isto acrescente-se a direita austeritária em países como Portugal, esquecida do papel que teve na construção do estado social e desejosa de reviver episódios empoeirados do passado. E o que temos é uma metade do tabuleiro político sequestrada. E sabe-se que eu não estou propriamente otimista quanto ao estado da restante metade.” 

Vi o futuro, e não é bonito.

Vinte e três anos depois de lhe ser atribuído o prémio Sakharov, a líder birmanesa Aung San Suu Kyi, que passou a maior parte desse tempo em prisão domiciliária, veio finalmente a Estrasburgo para recebê-lo. A sua presença é incomparável. Quando começa a falar, fá-lo com frases simples, harmónicas, graciosas. “A liberdade de pensamento começa pelo direito de fazer perguntas”, diz, e faz uma pausa. “Nunca aleguei que a democracia fosse perfeita”, recomeça, “mas não existe algo de agradável e estimulante na imperfeição?” Quando nos levantamos para aplaudir, tenho na cabeça outra frase dela: “hoje fizemos progresso, não o suficiente, mas progresso”. Vale a pena nãodesistir.

Mas depois preparamo-nos para os votos. O relatório seguinte é o da colega portuguesa Edite Estrela, sobre “Saúde sexual e reprodutiva”, que votámos na Comissão dos Assuntos das Mulheres com uma larga maioria. De repente, os deputados da extrema-direita, que no debate da véspera eu ouvira considerarem “anormais” os homossexuais e proclamarem que a reprodução é o único propósito do sexo, começam a agitar-se nas cadeiras. Um deputado conservador pede que se considere o adiamento do voto. Com um pouco de amadorismo à mistura, instala-se a confusão. Há pateadas, urros, uma cena mais digna de um jardim zoológico do que de um parlamento. A vozearia sobe e alarga-se ao resto da direita. Quando finalmente se vota, os reacionários conseguem o seu intento: o relatório é adiado.

Mas mais do que o destino do relatório (que, estou seguro, acabará por ser aprovado) o que impressiona é que a extrema-direita conseguiu intimidar a direita a votar consigo. É por isso que digo que vi o futuro. E não é bonito: com as sondagens a darem 24% a Marine Le Pen em França, a direita fica submetida à agenda cultural da extrema-direita, como nos EUA os moderados republicanos ficam submetidos ao Tea Party. O mesmo se passa em muitos países da Europa. Nas questões morais, nas questões sociais e sobretudo nas questões culturais, a direita civilizada que costumava tomar as suas distâncias em relação à extrema-direita é um setor que vai ficar mais ténue. Uma grande parte da direita sente agora a tentação forte de reconstituir uma direita reacionária como não havia na Europa desde antes das guerras.

Aquilo que eu vi, portanto, — e viu quem quis ver — é um indício do que poderá ser a Europa após 2014. A isto acrescente-se a direita austeritária em países como Portugal, esquecida do papel que teve na construção do estado social e desejosa de reviver episódios empoeirados do passado, querendo fazer do Tribunal Constitucional o fantasma do Conselho da Revolução (como escreveu aqui ontem Paulo Rangel). E o que temos é uma metade do tabuleiro político sequestrada. E sabe-se que eu não estou propriamente otimista quanto ao estado da restante metade.

Em resultado, nem o discurso de Aung San Suu Kyi me anima. Hoje não fizemos progresso. Fizemos regressão. E amanhã temo que seja pior ainda.

Se calhar entendi Aung San Suu Kyi ao contrário. Não é que valha a pena não desistir. É que não nos deixam.

(Crónica publicada no jornal Público em 23 de Outubro de 2013)

3 thoughts to “O porvir, sim, o porvir

  • António M P

    À sua consideração, a propósito:
    http://inteligenciaeconomica.com.pt/?p=18867

  • alexandre

    Não se esqueça de “convidar” o pessoal do blog “Arrastão” para o seu partido.

    São inteligências de primeira água, sempre ao serviço do povo e da Pátria Portuguesa !

  • mm

    Íncrível como , HOJE, temos e damos a possibilidade de ‘na nossa casa europeia’ a regime(s) poder(em) dar-se ao luxo de NÃO ser DEMOCRÁTICO(S), resvalando [se n já estatelado(s)] para aquilo q já começa a ser ‘a respiração’ da Europa, ofegante, violenta e discriminatória, num perigo de ‘pré-modernidade’ e regressão (começando nos e para os seus) onde se pode considerar, em ar de declaração de guerra e provincianismo cultural e político (e territorial, q tb grassa por aí…), declarar outro europeu ‘persona non grata’, por denúncia dos evidentes lei e espírito, perigosos e retrógrados, descarada e anacronicamente NÃO DEMOCRÁTICOS, em pleno ‘coração’ da Europa!!!

    Mas n é só a Hungria!

    Começa a ser e a ter, já visivelmente, mt mais a substância de um derrame ‘em larga escala’ — mesmo q subterrânea–, q ameaça ‘o Corpus’ europeu tão longa, dura (às vezes bárbara e assassina) e pensadamente desejados, sofridos e lutados, os valores e práticas q já nos começam a estar entranhados e a serem o mínimo q se pede à Europa!!!

    Ou não?

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