Na Europa e no mundo começava a engolir-se em seco. Em poucas semanas de Verão, chegando a apanhar generais passando férias no território dos inimigos, a guerra tinha começado. 

A meio de agosto de 1914, «O Século» previra, em linha com a opinião geral, que a guerra teria de ser curta. “A guerra atual não deverá manter-se por um periodo superior a uns cinco mezes”, para se alcançarem “resultados decisivos”. Para isso contribuía o grande nível de integração das economias europeias, “sobretudo na Alemanha, que tem toda a sua vida comercial bloqueada” e onde a situação não se poderia prolongar.

Quinze dias depois o mesmo jornal começou a rever a sua opinião: “Julgou-se a principio, segundo muitas e autorisadas opiniões, que a guerra européa, certamente violenta e assoladora, seria, comtudo, de curta duração. Porém, em vista do caminho que os sucessos vão tomando, tal juizo está hoje modificado”. E segue, citando o correspondente militar do «The Times»: “A França lançou já na luta a totalidade dos seus homens. Nada mais pode fazer […] A Russia é uma força defensiva imensa; porém, o seu poder ofensivo está ainda por demonstrar. É possível que esmaguemos o primeiro ataque dos alemães; mas não devemos esquecer que, atravez da primeira linha, teem concentradas imensas reservas, e que a Alemanha está disposta a proseguir a luta até ao ultimo alento. Nesta condições, a guerra pode ser longa, muito longa.”

Na Europa e no mundo começava a engolir-se em seco. Em poucas semanas de Verão, chegando a apanhar generais passando férias no território dos inimigos, a guerra tinha começado. No Luxemburgo, na Bélgica, na Herzegovina morriam já os jovens europeus. Agora talvez não fosse possível que os rapazes voltassem a casa pelo Natal.

(E daqui a poucos dias «O Século» daria conta de que os alemães, afinal, “são nossos vizinhos” — em Angola e Moçambique.)

Anos antes da guerra praticamente só uma voz se opunha à doutrina do “golpe decisivo” de que «O Século» fazia eco. Era um banqueiro polaco, de ascendência judaica mas convertido ao calvinismo, e como a maioria dos polacos vivendo submetido ao czar da Rússia. O seu nome era Jan Bloch e escrevera no fim do século XIX um livro chamado “É a guerra impossível?”. Atente-se no ponto de interrogação. Jan Bloch não afirmava a impossibilidade da guerra, e chegava a admitir que ela até fosse muito provável dadas as condições certas, que incluíam o rearmamento das potências europeias e a vontade que algumas tivessem de atacar antes que as suas adversárias estivessem demasiado fortes. O que Jan Bloch afirmava era que não se poderia esperar uma guerra curta e ofensiva, como tinha sido o conflito entre a França e a Prússia, em 1870. Os avanços tecnológicos e a industrialização das potências fazia prever que, após um primeiro embate, a guerra se tornasse num esforço de atrição até ao esgotamento.

Jan Bloch não era militar, e os militares atacavam as suas ideias disparatadas. Mas era exatamente isso que estava a acontecer agora: as potências chocavam de frente e, quando viam que não podiam avançar mais, cavavam.

Quanto à integração económica que era suposto impedir a guerra, ou pelo menos fazê-la curta, viria mais tarde a ser usada como argumento para a inevitabilidade dela. Assim são os fluxos e refluxos do debate de ideias. Ou, para ser mais rigoroso: do convencimento permanente de que estamos certos, pela convicção que pomos nos nossos erros sucessivos.

(Crónica publicada no jornal Público em 28 de Agosto de 2013)

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