Em democracia, as oportunidades perdidas não duram só o tempo de uma campanha eleitoral. Elas perduram por anos. A irresponsabilidade dos políticos em 2009 permanece na nossa desgraça de hoje.

Em 2009, tivemos três eleições em Portugal — europeias, legislativas e autárquicas. Para quem acredita na democracia, era uma grande oportunidade de fazer três grandes debates sobre o nosso lugar na Europa, o futuro do país e a qualidade de vida nas nossas cidades, vilas e aldeias.

Falhar estes debates tem consequências. No ciclo de 2009, era suposto que as eleições europeias fossem uma espécie de ensaio geral para a mudança, sugerindo que o eleitorado queria que a sua pluralidade estivesse bem representada politicamente, preparando-se para recusar maioria absoluta a um só partido, mas pretendendo que os partidos dialogassem para encontrar rumos para o país. A partir das legislativas, porém, viu-se que os partidos não estavam prontos para levar a sério o seu papel num parlamentarismo reforçado, eque a Assembleia da República seria afinal uma mera antecâmara da próxima queda do governo. Isso acabou fazendo das autárquicas uma obrigação de calendário a que ninguém deu significado profundo.

A janela fechou-se. Em plena tempestade económica global, Portugal não ficou mais forte nem mais ágil. A nossa política não passou a dar respostas mais rápidas nem mais claras. Pelo contrário: pouco antes de batermos na parede, a grande questão continuava a ser quando é que a direita saciaria a sua sede de “ir ao pote” e quem, na esquerda, ganharia o desafio de apresentar moções de censura mais depressa.

Em democracia, as oportunidades perdidas não duram só o tempo de uma campanha eleitoral. Elas perduram por anos. A irresponsabilidade dos políticos em 2009 permanece na nossa desgraça de hoje.

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Abre-se agora novo ciclo, com uma ordem diferente e um ritmo mais espaçado. Temos eleições autárquicas daqui a poucas semanas. Eleições europeias daqui a pouco menos de um ano. Legislativas, em teoria, um ano depois disso. E, finalmente, presidenciais em 2016. Em três anos, se a nossa política souber fazer os debates certos e, acima de tudo, apresentar escolhas consequentes, Portugal poderá dar a volta à crise. Mas os primeiros sinais são péssimos.

As eleições autárquicas foram já desperdiçadas. À farsa da limitação de mandatos juntou-se a tragédia da não-cobertura televisiva das eleições. Nas autárquicas de 1976, Soares, Sá-Carneiro, Cunhal e Freitas foram à TV debater o poder local. Hoje, os líderes partidários não têm nada a dizer sobre as cidades, vila e aldeias emque os portugueses vivem.

As eleições europeias de 2014 chegam em plena crise da União, mas numa altura em que o debate europeu em Portugal é quase inexistente, ou então feito num ambiente de ignorância, irrealismo e negligência.

E as eleições legislativas de 2015, será que elas vão resolver alguma coisa? Pelo que vemos da habitual puerilidade à esquerda, o resultado será um governo de direita ou, para gáudio dos sectários, um governo do PS com a direita. As políticas serão as mesmas.

Pode ser que então a sociedade civil acorde para as Presidenciais de 2016. Os partidos talvez acompanhem, porque os custos políticos são menores para as suas direções. Nessa altura, porém, as janelas já estarão fechadas e o país bloqueado até ao fim da década ou mais. As janelas que se fecham não se voltam a abrir.

Ou para ser mais rigoroso: as janelas só se abrem quando fazemos algo por isso.

(Crónica publicada no jornal Público em 11 de Setembro de 2013)

2 thoughts to “Janelas que se fecham

  • alexandre

    Por cada janela que se fecha, possivelmente vão abrir-se portas para que pelo menos os ratos abandonem o navio…….!!!!!

  • João

    Face a inexistência de um projeto político amplo e consensual que una as esquerdas no essencial e se apresente mobilizador e atrativo apetece escrever:

    Senhora de maus costumes que os pôs no mundo ( aos políticos…todos)

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