A lição da Iª Guerra Mundial não está, portanto, muito longe: se a situação no terreno não muda, é melhor negociar já do que milhares de mortos depois.

Nos meses de julho e agosto, vez sim, vez não, fui escrevendo sobre o início da Iª Guerra Mundial. A dificuldade estava em explicar como puderam as grandes potências do tempo, há 99 anos, entrar tão de repente em guerra.

A triste ironia é que, ao mesmo tempo em que escrevia, acontecia na Síria algo de muito semelhante à Iª Guerra Mundial.

Não me refiro já — e espero que nunca — à cadeia de alianças que se concatenou para uma guerra mundial por causa de uma disputa regional: a Áustria-Hungria que fez um ultimato à Sérvia, que foi defendida pela Rússia e por aí adiante. É fácil trasladar essa lógica para hoje e profetizar: os EUA que impõem uma linha vermelha à Síria, que é defendida pela Rússia e atacada pela Turquia, e defendida pelo Irão, que ataca Israel… mas apesar de já não estarmos nos anos 90, quando foi possível atacar a Sérvia nas barbas da Rússia, esperemos que ninguém tenha vontade de brincar à IIIª Guerra Mundial.

A semelhança que tenho em mente está mais relacionada com os acontecimentos no terreno sírio.

Um problema de base desta guerra foi começar com todos os atores internacionais apostando numa vitória rápida, de um lado ou de outro, mas com resultado decisivo. Era simplesmente mais cómodo acreditar que a coisa se resolvesse sozinha, e rápido. Mas passado dois anos a guerra continua emperrada. Mais do que ganhar decisivamente a guerra, os dois lados parecem agora lutar para poder impor mais condições numa negociação. Pelo menos é isso que sugere a utilização de armas químicas (por curiosidade, mais ou menos na mesma fase do conflito em que elas começaram a ser usadas na Iª Guerra Mundial).

Como antes, a comunidade internacional continua teimosamente a apostar numa resolução rápida. Mas quem sabe? Esta guerra pode durar outro tanto, ou mais. O Líbano, ali ao lado, destruiu-se durante quinze anos. O mesmo não é impossível na Síria.

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O que cada potência quer na Síria é agora inatingível. O que é ainda atingível, para bem do povo sírio, é aquilo que cada potência deseja evitar. Os EUA e a União Europeia não querem que a oposição secular seja aniquilada por um novo regime fundamentalista; a Rússia não deseja perder acesso a um porto no Mediterrâneo e não quer ver os cristãos ortodoxos varridos; a Turquia não quer ver a Síria desmembrada e um estado curdo independente. Quanto ao Irão e à Arábia Saudita, é mais difícil saber o que não querem, pois são os principais beneficiados de uma guerra prolongada.

É verdade que há muitos obstáculos para uma saída negociada. Mas é verdade também que esses obstáculos não serão removidos pela via militar (além dos argumentos de princípio, que expus na crónica anterior, contra uma intervenção sem mandato da ONU). A lição da Iª Guerra Mundial não está, portanto, muito longe: se a situação no terreno não muda, é melhor negociar já do que milhares de mortos depois.

E, já agora: a nossa Europa de memória curta deveria lembrar-se dessa história. Pois foi no fim da Grande Guerra, porque os vencedores queriam desmembrar o Império Otomano, que os ingleses ficaram com o Iraque e os franceses com um país chamado Síria. Chamamos a isto Médio Oriente mas, na verdade, é também história europeia.

(Crónica publicada no jornal Público em 04 de Setembro de 2013)

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