Quero o fim das ilusões porque essas ilusões de uma queda fácil do governo têm poupado a oposição à sua grande responsabilidade: trabalhar no duro para criar uma alternativa.

A semana passada Paulo Portas falou aos portugueses e traçou uma linha vermelha: o CDS não poderia aceitar uma nova taxa sobre as pensões. O próximo parágrafo é o que escrevi então:

“Pode ser teatro talentoso, mas não deixa de ser teatro. E esconde duas coisas. A primeira é que Paulo Portas não é uma personagem nesta peça: é um dos autores. A segunda é que, por mais que isto pareça uma farsa, é de uma tragédia que se trata.”

A farsa durou uma semana. Ontem, o Conselho de Ministros finalizou as medidas a juntar ao fecho da 7ª avaliação da troika, e a taxa sobre as pensões lá está, aceite pelo CDS a título “extraordinário”.

É o fim do engano. Há só um governo, uma maioria e um presidente. São irrelevantes as diferenças entre PSD e CDS, entre Portas e Passos, entre troika e destroika, entre Cavaco e Gaspar.

Mas espero que seja mais: espero que seja o fim das ilusões. O fim da crença supersticiosa na queda do governo por dentro, de que é preciso seguir os trejeitos faciais de Paulo Portas como quem lê o futuro nas folhas de chá, de que um escândalo qualquer ou uma zanga qualquer entre os partidos da maioria desbloquearão a situação em que nos encontramos.

Claro, a farsa de Paulo Portas recomeçará em breve. A linha vermelha, dir-se-á, foi deslocada apenas um pouco mais para a frente, mais ainda lá está. As picardias entre políticos da maioria e o ministro Vítor Gaspar continuarão a encher páginas de jornais. É preciso ocupar 69 horas de comentário televisivo feito semanalmente por 60 políticos. Continuaremos a seguir com frémito tudo isso. É sempre possível que alguma coisa, algum dia, faça o governo cair.

Quero o fim das ilusões porque essas ilusões de uma queda fácil do governo têm poupado a oposição à sua grande responsabilidade: trabalhar no duro para criar uma alternativa. Se o governo cai sozinho, não é preciso quebrar com os velhos hábitos nem afrontar os preconceitos e encetar conversações difíceis, regulares, públicas, para ver se é possível um programa comum. Se o governo cai sozinho, é possível gerir o quotidiano com um olho nas sondagens e outro nas declarações tonitruantes na televisão. Se o governo cai sozinho é possível dizer que “estamos prontos” sem acreditar nisso por um momento.

E a verdade é que estamos longe. Não há um plano claro para uma política contra a austeridade. Não há um programa diferenciado sobre Portugal na União Europeia. Não há sequer um debate sobre o modelo de desenvolvimento para o país. E muito menos há uma discussão na diversas oposições sobre quais elementos das suas propostas são ou não compatíveis.

O governo leva a sério o seu trabalho de desconstrução do estado social. A oposição deveria levar a sério a sua missão de salvaguarda desse estado social. Mas então, por que jamais admite em público que, para levar a cabo essa missão, esperar pela queda do governo não basta?

(Crónica publicada no jornal Público em 13 de Maio de 2013)

2 thoughts to “O fim das ilusões

  • alexandre

    A começar na UE a Europa está cheia de peralvilhos mentais e farsantes, olhando para o seu umbigo da barriga cheia de “leis” sem aplicação prática e só os chamados “bons alunos….” as aplicam!

    Capoeiras, etc,etc,

    A UE está a “funcionar” com um guião de ficçção científica (tipo Ray Bradbury)no seu pior !

    Deixenm de arrajar trabalho (????) para políticos-de-“espelho” e comentaristas serôdios de TV !

    Alexandre

  • Francisco Vale Afonso

    Pois é, aqui andamos nós tentando descortinar se a linha é vermelha, ou laranja e o Paulinho das feiras, simulando máscaras austeras, qual penitente vestido de cinzas em período quaresmal.
    Só que o jejum e a penitência não lhe dizem respeito. Uns vestem de saco e simulam rostos macilentos, recorrendo a todos os truques de maquilhagem e outros tentam esconder os danos efectivos de carências inauditas, tentando manter alguma dignidade. Há aí sim uma linha que separa uns e outros e é a da hipocrisia e indignidade de um lado e a da humilhação e do sofrimento do outro.

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