“Antes de ter de optar entre desvalorização interna e desvalorização externa, seria necessário refutar a possibilidade de outra saída da crise: a Grande Valorização. Essa Grande Valorização seria prolongada, passo a passo, e teria três aspectos: a valorização financeira, a valorização da economia e, finalmente, — porque é aquela que mobilizará as pessoas para as outras duas, — a revalorização democrática.”

Há, dizem, duas maneiras de sair da crise. A primeira é a que temos seguido. Chama-se “desvalorização interna”: baixar salários, cortar prestações sociais e baixar na exigência ambiental ou laboral. Como dizia o primeiro-ministro, empobrecer para ficar competitivo. Noutras palavras: vender-nos ao desbarato.

A outra maneira é a da “desvalorização externa”. Implica sair do euro para voltar a imprimir a nossa moeda e desvalorizá-la. A proposta aparece como uma rutura inevitável e até de emergência perante a brutalidade da desvalorização interna. Quem a apresenta quer parar de desvalorizar as pessoas para desvalorizar apenas a moeda.

Ambas as soluções são, de forma mais ou menos admitida, um regresso ao passado. No primeiro caso, regresso a um passado de desvalorização do capital humano. No segundo, regresso a um passado em que “tínhamos” soberania, mas essa soberania implicava na maior parte das vezes uma reação mecânica aos acontecimentos através da desvalorização da moeda — uma soberania que nos força a fazer sempre a mesma coisa será assim tão soberana?

Ambas estas posições acabam por ser económicas apenas num sentido muito estrito. A desvalorização interna é economia como se as pessoas não tivessem importância. A desvalorização externa é economia como se as instituições — e o complexo novelo jurídico que determina as suas relações ao nível europeu — fossem uma coisa a determinar escolhendo o que interessa e descartando o resto. Ora, economia que é economia não pode ser só isso. Uma desvalorização interna que faz emigrar uma parte da nossa juventude mais educada, tal como uma desvalorização externa que nos enviasse para uma década de negociação de acordos para reconquistar acesso ao mercado da União, acabarão sempre por recair sobre a economia de uma forma mais dura e prolongada do que os seus defensores imaginavam.

A ideia de que a presente situação só apresenta duas possibilidades — ou austeridade ou saída do euro — empresta-se facilmente à frustração e ao derrotismo. Dificulta a criação de um programa comum da oposição e a criação de alternativa, pois paralisa o povo — quando mobilizá-lo é condição essencial para qualquer saída da crise. As pessoas querem dar a volta a isto, mas não querem necessariamente voltar para trás.

Por isso, antes de ter de optar entre desvalorização interna e desvalorização externa, seria necessário refutar a possibilidade de outra saída da crise: a Grande Valorização.

Essa Grande Valorização seria prolongada, passo a passo, e teria três aspectos.

A valorização financeira, através de uma reforma fiscal, de instrumentos que atraíssem capitais, e do combate à lavagem de dinheiro e à evasão fiscal.

A valorização da economia, através da aposta no capital humano e na reconversão do nosso perfil produtivo.

E, finalmente, — porque é aquela que mobilizará as pessoas para as outras duas, — a revalorização democrática. Para devolver às pessoas confiança na ação política como forma de resolver os seus problemas.

A primeira escolha de um país deve ser valorizar-se. Só provando que é impossível seguir este caminho seremos forçados a escolher uma das duas desvalorizações que nos propõem.

(Crónica publicada no jornal Público em 15 de Maio de 2013)

2 thoughts to “A Grande Valorização

  • alexandre

    O roubo aos contribuintes denunciado por Godfrey Bloom no Parlamento Europeu.

    http://sorisomail.com/partilha/238743.html

    Deve já conhecer… esses são FACTOS REAIS !

    Alexandre

  • alexandre

    Do “Expresso”

    A Comissão Europeia fez hoje marcha-atrás em relação à intenção de tornar obrigatória em toda a União Europeia a utilização de garrafas invioláveis e não reutilizáveis para o azeite servido nos restaurantes.

    Bruxelas queria aplicar a toda a União uma prática já adotada em Portugal desde 2006, e cujo arranque não foi isento de polémica, uma medida justificada com a necessidade de combater a fraude, proteger o consumidor e a qualidade do produto.

    A proposta da Comissão foi longamente discutida pelos governos da União e acabou por recolher o apoio de 15 dos 27 países. Estes, no entanto, não reuniam a chamada maioria qualificada de votos, o que deixava a decisão final nas mãos do Executivo comunitário.

    E perante o vendaval de críticas oriundo do Norte da Europa ao longo da última semana (da parte de eurodeputados e governos, como o Reino Unido), onde curiosamente se consome pouco e não se produz nenhum azeite, o comissário europeu responsável pela agricultura, o romeno Dacian Ciolos, anunciou hoje o abandono da sua proposta, com o argumento de que a mesma “não está formulada de forma a recolher um apoio alargado dos consumidores”.

    Ler mais: http://expresso.sapo.pt/bruxelas-recua-na-proibicao-dos-galheteiros=f809044#ixzz2U7f2KpF6

    Em 2013, ……..é com o que se preocupam !

    Alexandre

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