Respostas concretas para o que é concreto! Respostas objetivas para o que é específico! Isto é poesia em prosa.

Concreto: por favor, não demitam Miguel Relvas. Eu sei que o CDS começou recentemente a insinuar que seria melhor demitir o Ministro dos Assuntos Parlamentares. Ainda não conseguiu dizê-lo em voz alta e, pelos vistos, ainda não percebeu que a melhor maneira de demitir Miguel Relvas é não falar disso. Ou até exigir que ele fique. Mas, acima de tudo, não nos tirem Miguel Relvas, porque ele é neste momento o único político no país que — além de cantar a Grândola com esmero — é capaz de dizer uma coisa destas:

«Eu quis aqui estar hoje porque, num tempo em que somos confrontados diariamente com a gestão da incerteza e a gestão das incógnitas, é importante que aqueles que têm responsabilidades públicas sejam capazes em cada uma das áreas de ter respostas concretas para o que é concreto e respostas objetivas para o que é específico».

Isto foi o que disse Miguel Relvas, ontem. Respostas concretas para o que é concreto! Respostas objetivas para o que é específico! Isto é poesia em prosa. Não deixem sair este filósofo do governo.

Objetivo: o que fazer a alguém que é acusado dos crimes de abuso de poder, violação de segredo de Estado e de acesso indevido a dados pessoais? Pois bem: integrá-lo nos funcionários da Presidência do Conselho de Ministros. Que mais poderia ser? Talvez mais isto: pô-lo ao nível salarial anterior e pagar-lhe os vencimentos que não auferiu entretanto. Nada mais? Eu sugeriria os pés lavados com água de malvas pelos portugueses espiados ilegalmente, pelo jornalista que teve as suas comunicações violadas, pelo cidadão que teve o azar de casar com uma ex-mulher de um espião lusitano, pela jornalista que viu a sua vida pessoal devassada. Mais alguma coisa? Uma petição às avessas para saber o que pretende de nós Jorge Silva Carvalho, o espião que teve reuniões de negócios com Miguel Relvas, para esquecimento deste no parlamento.

Sim, eu sei. Vão dizer que o ex-espião tinha de ser reintegrado ao abrigo de uma lei já antiga, de 007 — 2007, quero dizer — que permite a um espião pedir a exoneração e a reintegração ao mesmo tempo, possibilitando, entre uma coisa e outra, uma incursão de carreira no privado — para o qual antes se tinham passado informações. Para que deveriam dar satisfações aos cidadãos os dois autores do despacho de reintegração, Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar? Bem, talvez para nos dizer se o trabalho do ex-espião e agora funcionário público vai ter algum tipo de precauções, algum tipo de restrições? Talvez para nos dar conta da possibilidade de um processo disciplinar, agora que Silva Carvalho voltou? Talvez para nos explicar com que interpretação se permite a reintegração de alguém que está acusado de violar a lei no seu posto anterior?

Específico: lembro-me de quando a imprensa alemã andava muito preocupada com a nomeação de Mario Draghi para o Banco Central Europeu. Mamma mia!, dizia o jornal Bild, um italiano! Para os italianos, a inflação é como molho de tomate no esparguete. Teria sido melhor ter, por exemplo, um holandês.

O senhor Dijsselbloem é holandês. Em 24 horas disse, e depois contradisse, que o mecanismo que se aplicou a Chipre será aplicado a outros países. Para ser específico, deveria ter dito: ainda antes de ser aplicado a Chipre já isto estava previsto numa coisa chamada Mecanismo Único de Resolução.Quem o exigiu? Os alemães.

(Crónica publicada no jornal Público em 27 de Março de 2013)

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