Para simplificar, digamos que Chipre tem duas opções: ou escolhe a Rússia ou a União Europeia

De forma a entender as opções que agora se apresentam perante Chipre é preciso entender a geopolítica e a história da região. Os próximos três mil caracteres servirão de introdução, resumindo a explicação que me foi dada por um amigo cipriota.

Para simplificar, digamos que Chipre tem duas opções: ou escolhe a Rússia ou a União Europeia. Se escolher a Rússia, sairá do euro e da União, uma vez que os tratados não permitem outra hipótese e o diretório aproveitará a ocasião para estabelecer um exemplo para os outros. A curto prazo, a Rússia financiará Chipre; a médio e longo prazo, há poucas coisas tão desagradáveis como ser um satélite da Rússia. Se escolher a União Europeia, Chipre fará o que a Alemanha mandar, incluindo ser obrigado a negociar com os turcos que ocupam a parte Norte da ilha. Os greco-cipriotas poderiam aceitar as condições alemãs ou deixar arrastar a coisa até à partição da ilha.

Em segundo lugar há a questão do gás natural que foi descoberto entre Chipre e Israel. Esse gás ainda vai demorar uns dez anos a começar a dar dinheiro. Até lá, a questão é como tirá-lo do fundo do mar e até onde o levar. Para simplificar, se a República de Chipre, que ocupa só a metade Sul da ilha, for obrigada a reconhecer a República Turca do Norte de Chipre, há dois tipos de consequências. Abre-se a possibilidade de fazer um pipeline para a península da Anatólia e depois atravessar a Turquia até à Bulgária, acabando os greco-cipriotas a pagar a turcos para exportar o seu gás (os gregos não gostam). E reabre-se o dossier das zonas económicas exclusivas da região, em particular nos sessenta quilómetros de mar que separam Chipre da Síria (os sírios não gostam). Os russos, é claro, apoiam a junção da ilha e gostariam de ter aí bases militares (os ingleses não gostam).

Se entendermos a ilha como uma entidade, a República de Chipre, os cidadãos turco-cipriotas também têm direito ao gás natural, e isso pode atrasar a sua extração nos tribunais. Se entendermos as bases militares inglesas em Chipre como soberanas, como pretendia um dos planos de Kofi Annan, também os britânicos têm direito ao gás.  Se entendermos a Palestina como um estado soberano, os palestinianos também têm direito ao gás.

Outra hipótese para o pipeline é, para simplificar, fazê-lo até à Grécia com dinheiro israelita e depois fazê-lo passar para a Macedónia, com quem a Grécia tem um conflito por causa do nome do país e do abuso da figura histórica do imperador greco-macedónio Alexandre, o Grande. Mas os israelitas já estão em campo na Macedónia, onde abriram agora um grande aeroporto, chamado Alexandre, o Grande.

A isto teremos de acrescentar os laços de solidariedade na região. Para simplificar, temos a solidariedade ortodoxa entre russos e gregos e sérvios, a solidariedade muçulmana contra os cristãos e judeus, a solidariedade árabe contra os turcos, a solidariedade entre turcos e israelitas contra os árabes, a solidariedade dos eslavos (exceto os búlgaros) a favor dos macedónios e contra os gregos, a solidariedade turco-albanesa contra os gregos, a solidariedade greco-sérvia contra os albaneses, a solidariedade israelo-americana contra os palestinianos e a solidariedade de todos contra os curdos.

E depois temos a questão do mar Egeu. Para simplificar, deixamo-la para uma próxima crónica.

(Crónica publicada no jornal Público em 20 de Março de 2013)

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