Se nascem da impotência e da desinformação os rumores, as ilusões coletivas e as imposturas puras e simples, é no desespero que eles ganham o seu potencial de contaminação.

No início da Iª Guerra Mundial, com a França em pânico e a Inglaterra receosa, começou a espalhar-se o rumor de que estavam para chegar milhares de reforços russos, vindos pelo Mar do Norte, ou se calhar pelo Mediterrâneo. Havia quem garantisse tê-los visto desembarcar na Escócia, e havia quem garantisse tê-los visto desembarcar em Marselha. A esperança era a de que a Rússia, reservatório inesgotável de homens, viesse in extremis salvar a França das tropas alemãs.

Era no tempo em que se achava que a Guerra acabaria pelo Natal.

Na Bélgica, os soldados alemães avançavam temerosos, com as cabeças cheias de histórias das atrocidades dos franco-atiradores inimigos. Mais tarde, alegariam que as suas atrocidades tinham sido cometidas por acreditarem que os belgas as cometiam ainda piores. Mas ainda antes de poderem justificar-se, já os rumores sobre as suas próprias atrocidades corriam a Europa e atravessavam o Atlântico: os alemães eram os “hunos”, bestas insensíveis e incivilizadas, que violavam as mulheres belgas e matavam os prisioneiros de guerra.

Nunca ninguém chegou a saber como nem onde nasceu a ilusão de que estavam para chegar soldados russos para salvar a França e defender a Inglaterra. Após o fim da Guerra, o historiador Marc Bloch, que tinha sido capitão em 1918, escreveu um livro “sobre os falsos rumores da guerra”, em que notou como estes eram um efeito da impotência (pois nasciam em geral na retaguarda) e da desinformação (pela reintrodução da censura militar).

Marc Bloch era um historiador brilhante e, de certa forma, veio ele próprio a ser vítima de um enorme rumor que nasceu após a guerra: o de que a Alemanha tinha perdido por ter levado uma “facada nas costas” dada pelos seus soldados judeus. Marc Bloch, que era judeu alsaciano, e de uma família que optara por ser francesa, juntou-se à resistência na guerra seguinte. Foi apanhado pela Gestapo, torturado e morto em 1945.

Se nascem da impotência e da desinformação os rumores, as ilusões coletivas e as imposturas puras e simples, é no desespero que eles ganham o seu potencial de contaminação.

É assim que interpreto a enorme força que ganhou nos últimos dias a bizarra história do estudo realizado por um “observatório da ONU para a Europa do Sul”, coordenado por um português. Este estudo, que ora estava a ser elaborado, ora já tinha sido entregue pela ONU “a todos os órgãos de soberania”, era apresentado pelo seu putativo autor como identificando a origem de 41% da dívida portuguesa nos cofinanciamentos de projetos europeus, preconizando-se então a anulação desta dívida e a “suspensão por dez anos o artigo 123 dos tratados europeus” para permitir o financiamento de Portugal.

Em poucos dias, o que era impraticável opinião de uma pessoa passou a ser citado como postulado da ONU em vários dos nossos títulos de imprensa: “ONU defende renegociação imediata da dívida portuguesa”. Como é que a ONU poderia emitir uma opinião destas sem ter votado uma resolução? A vontade de acreditar que, alguém, lá fora, estava do nosso lado, fez da ONU os nossos ilusórios soldados russos, quase a desembarcar para nos salvar.

O facto de já termos chegado a este ponto deveria dar que pensar a muitos jornalistas, políticos e académicos. Isto é efeito da impotência, da desinformação e do desespero, e — tal como antes — não vai ficar por aqui.

(Crónica publicada no jornal Público em 24 de Dezembro de 2012).

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