Temos um governo, aqui em Portugal, que não só aceitou o neocolonialismo intraeuropeu como fez dele o seu ideal. 

Acontece de vez em quando chegar um jornalista do centro da Europa, incumbido de ouvir uns quantos portugueses, que me pede a opinião sobre a crise da zona euro. E eu, ingénuo, dou-lhe a minha opinião sobre a crise da zona euro. E depois, mais ingénuo ainda, digo-lhe que o tema não acaba ali, e que é importante que falemos, enquanto europeus, sobre o futuro da União Europeia. E, tonto que sou, dou-lhe também as minhas opiniões sobre isso.

Grave erro! O jornalista centro-europeu quer saber duas coisas, e duas coisas apenas. A primeira interessa-lhe enquanto centro-europeu: saber se os portugueses aguentam as reformas da troica, as implementam todinhas, e não chateiam mais. Caso contrário, quer saber se há possibilidade de os portugueses saírem da toca, revoltarem-se, quebrarem umas montras e incendiarem uns carros — e isto interessa-lhe já por motivos profissionais.

Ai se esse jornalista nos visse hoje. Neste dia mesmo, lá vamos nós aprovar mais uma medidinha da troica: despedir gente vai passar a ser um terço mais barato. Porque aquilo de que nós precisamos agora, imaginaram alguns centro-europeus (e acreditam alguns portugueses) é de mais desempregados, com menos dinheiro no bolso, para contrair o consumo e gerar mais futuros desempregados.

Segue-se esta medida ao corte de metade do subsídio de Natal. E antecederá a venda da RTP, da TAP, e das Águas de Portugal, três crimes de lesa-pátria. E tudo isto os portugueses, que não são gregos nem espanhóis (e nem sequer franceses ou ingleses!) aguentarão estóica e pacificamente.

Insisto eu: mas isto não era uma entrevista sobre o euro e a União?

A essa altura já o centro-europeu apanhou o avião para o Centro da Europa, onde a divisão de tarefas é bem clara. O futuro da União é coisa para perguntar a um francês ou uma alemã, de preferência a esses dois que o leitor está a pensar. Berlim e Paris mandaram fazer uma sangria; de Lisboa só é preciso saber se vai esbracejar demasiado ou esvair-se em sangue.

Às vezes passo-me e digo que este neocolonialismo intraeuropeu é que está a matar a União. Que aquilo que tiverem a dizer os portugueses, irlandeses e gregos não é só importante porque estes países estão na linha da frente da crise, mas simplesmente porque eles são membros de pleno direito da União, e não países de segunda categoria. Que em democracia — a que ainda estamos apegados, por a termos há uma geração apenas — os remédios só funcionam quando são decididos por todos.

Mas, sabem? Não é fácil. Em parte porque temos um governo, aqui em Portugal, que não só aceitou o neocolonialismo intraeuropeu como fez dele o seu ideal. Se nos receitarem uma sangria, diz a doutrina, a nossa melhor opção é sorrir enquanto esticamos o pescoço. A docilidade ainda vai mais longe: escolhemos não ter opinião sobre para onde vai a União Europeia. Governo económico? Metas de inflação? Eurobonds? Portugal não tem posição. Disso sabe Berlim e Paris, que são coisas muito complicadas para a cabecinha de Lisboa.

Isto vai acabar mal. À força de não emitir opinião sobre as questões mais cruciais do nosso futuro ainda chegará o dia em que, num conselho europeu qualquer, Passos Coelho não será ouvido nem se quebrar uma montra ou incendiar um carro.

2 thoughts to “Os indígenas

  • Virgínia Ferreira

    Caro Rui Tavares

    Quero enviar-lhe um mail para abordar um tema que vi numa crónica sua, mas cujo seguimento, se o teve, perdi. Trata-se do envio de livros para Timor.

    Agradeço que me responda para o mail indicado (sou pré-histórica quanto ao twitter e ao facbook).

    Saudações cordiais

  • Ricardo

    Caro Rui,

    Gosto de ver que procura não misturar o representante português na Comissão com o Governo. É pena que não o faça! Quem ouvir o nosso Presidente a falar pensa que o sangue que lhe corre nas veias é azul com estrelinhas amarelas.

    Quando o Presidente da Comissão abdica de cumprir as sua tarefas, então aí a União implodiu! A julgar pela forma como Passos Coelho se assemelha mais a “passos de canídeo” de cada vez que se “mete em turística” para mais um Concelho, não deverá haver já muitos que o oiçam. Nem que leve umas bombinhas de carnaval para dar nas vistas…

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