Quando não sobra muito da obra de alguns dos filósofos, Diógenes Laércio é considerado uma fonte essencial, talvez a única em alguns casos.

Diógenes Laércio da Cilícia

Há dois Diógenes importantes na antiga filosofia grega. Um deles é Diógenes o Cínico, que vivia como vagabundo, andava nu pelas ruas, fazia as necessidades onde calhava, e dormia dentro de uma barrica. A sua indiferença aos preceitos da sociedade está na origem do nome cínico, que não quer dizer aquilo a que estamos habituados, mas vem de kynikos, palavra grega relativa ao cão. Diógenes de forma tão livre e liberta como a de um cão — daí “cínico”, ou canino. Foi também o primeiro filósofo a declarar-se “cosmopolita”, cidadão do mundo. Diz-se que o imperador Alexandre o Grande pediu para o ver e lhe perguntou se ele queria alguma coisa. Diógenes disse-lhe que a única coisa que desejava do imperador era que ele se afastasse do Sol (Diógenes não queria estar à sombra). Alexandre proclamou: “Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes”. Diógenes disse-lhe: “estou à procura dos ossos do teu pai” — o rei e voraz conquistador Filipe, da Macedónia — “mas não consigo distingui-los dos de um escravo”.

O outro Diógenes é Diógenes Laércio, historiador da filosofia, ou melhor, biógrafo de filósofos. Tenho lido partes das suas “Vidas, doutrinas e sentenças dos filósofos ilustres” nos últimos dias.

Quando não sobra muito da obra de alguns dos filósofos, Diógenes Laércio é considerado uma fonte essencial, talvez a única em alguns casos. Por vezes tem uma ou duas páginas sobre um obscuro pré-socrático. Outras vezes dedica um “livro” inteiro (na verdade, um capítulo) ao chefe de uma escola. Tem, por exemplo, uma das mais completas biografias de Epicuro. Dedica também um livro aos estóicos.

Tanto estóicos como epicuristas almejavam alcançar um estado definido pela palavra grega “ataraxia”. Em português diríamos “imperturbabilidade”. A imperturbabilidade está descrita no famoso poema de Ricardo Reis chamado “Os Jogadores de Xadrez”, que começa assim:

“Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.”

E que vale a pena ler até ao fim.

A coisa melhor de ler Diógenes Laércio é ver um desfile de doutrinas filósoficas, cada uma não só com seus postulados, mas também com o seu temperamento, as suas semelhanças, as suas rivalidades.

(Aristóteles disse uma vez que ensinava “porque seria vergonhoso calar-me e deixar falar Xenócrates” — certamente um filósofo que desprezava — dando uma excelente explicação de porque falam muitas pessoas que falam sobre, por exemplo, política.)

De ser muito usado por filósofos sisudos, às vezes temos de Diógenes Laércio uma ideia também sisuda, e errada. Vejam uns excertos desta biografia de Epiménides, filósofo da ilha de Creta:

“Mudou de rosto e de cabelos da seguinte forma: seu pai enviou-o um dia a procurar uma ovelha; ele entrou numa caverna e ali adormeceu durante cinquenta e sete anos. Uma vez viajou para Atenas e negociou um tratado de paz. Recusou dinheiro. Regressou para a sua terra e morreu pouco depois com cento e cinquenta e sete anos de idade. Os cretenses dizem que foi com duzentos e noventa e nove. Xenófanes de Colofón afirma que foi com cento e cinquenta e quatro.”

Todos errados. Que maravilha. Viva Diógenes Laércio.

2 thoughts to “Diógenes Laércio

  • C. Medina Ribeiro

    «Diógenes disse-lhe que a única coisa que desejava do imperador era que ele se afastasse do Sol»

    Numa outra versão, Diógenes não foi tão claro, e disse a Alexandre: «Não me tires o que não me podes dar»

  • Carlos Gau

    Viva Diógenes, o Cão! Eis o filósofo que supera o pessimismo schopenhaueriano ao exemplificar, no presente vivo e vivido, o conceito de “Amor Fati” nietzscheano, revelando, assim, todo o sentido de uma tragicidade feliz da própria existência, desde que o princípio maior da vida seja a liberdade… Afinal, como ainda criamos crescentes e infindáveis necessidades artificiais. Não é mesmo? vivemos nas teias das superficialidades, num mundo repleto de batons e de blush… Correto mesmo estava Laércio, possuindo a liberdade não precisariamos de muito para sermos felizes.

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