Paulo Portas é como o gajo que está em sério risco de ficar sozinho mas anuncia com bravata que só lhe faltam duas pessoas para uma ménage à trois.

Contam os jornais que Paulo Portas, dono e senhor de um partido com cerca de onze por cento, se ofereceu para formar governo com os dois partidos “grandes” do sistema.

Permitam-me uma glosa.

Há anos vi um tipo atravessar a rua. Era numa cidade estrangeira, eu estava sentado numa esplanada de esquina, e aquele tipo chamou-me a atenção porque trazia uma daquelas t-shirts com uma frase escrita e eu — leitor compulsivo que sou — nunca consigo deixar de prestar atenção, apesar da minha miopia me obrigar a semicerrar os olhos muitos metros antes de conseguir ler o que lá vem escrito.

Enquanto isso fui observando o tipo. Ele tinha pinta de quem passava os dias a jogar videojogos, saía à rua de pantufas e ainda vivia em casa dos pais aos trinta e tal anos; pelo descuido na vestimenta e na higiene, dir-se-ia que não deveria ter muita facilidade para encontrar namorada. Mas isto era apenas uma maneira de interpretar, claro; ele próprio demonstrava olhar para a sua situação com outra soberba. Quando se aproximou, deu finalmente para ler qual era a frase que expunha escrita na t-shirt. E era ela:

“Só me faltam duas pessoas para uma ménage à trois”.

Naquela altura eu ainda não escrevia crónicas, mas desde que comecei tive de esperar anos até poder contar esta história de gosto duvidoso, o que finalmente faço graças a Paulo Portas — obrigado! Paulo Portas, na política portuguesa, é como o gajo que está em sério risco de ficar sozinho mas anuncia com bravata que só lhe faltam duas pessoas para uma ménage à trois. Alguém lhe deveria dar aquela t-shirt.

Sabem? Pensando melhor, isto não tem graça nenhuma. A única coisa divertida é o desespero de Portas, que anseia voltar para o poder (mas não o pode fazer enquanto Sócrates for o líder radioativo de quem toda a gente disse tanto mal que ninguém se pode aliar a ele) e que tem pavor do Bloco Central ou de um futuro governo PSD em maioria absoluta. O resto é, se nos detivermos um pouco a considerá-lo, francamente assustador.

Só existe uma razão para se fazer um governo por três partidos com oitenta por cento dos votos. É para fazer coisas contra oitenta por cento das pessoas. A democracia tem destes paradoxos: é para ser governada em maioria, mas quando se forma uma supermaioria é apenas porque o programa é tão-antidemocrático que nenhum dos atores se quer queimar com ele.

E assim, quando virem um governo PS+PSD+CDS podem ter a certeza que aí virão os cortes de 15-20-30% nos salários que os talibãs da economia têm andado a propor. Eles dirão “ainda bem”, porque estão convencidos que funciona. Mas pode também não funcionar — a Irlanda já o fez e não serviu para nada — e em troca ficarmos com uma depressão profunda em que a diminuição do poder de compra nos lança numa espiral de maior endividamento, falências e desemprego. Os acontecimentos com que tivesse de lidar um governo de supermaioria seriam provavelmente os mais sérios testes por que o país teria de passar desde os tempo do PREC.

PS: O regulamento das bolsas que aqui anunciei há um mês já está publicado, bem como o formulário para candidatura. Podem aceder a tudo em http://ruitavares.net/bolsas . Tenham em conta que serão privilegiados projetos de curta duração e que sejam efetivamente projetos. Se conhecerem potenciais candidatos de mérito, peço o favor de que ajudem a divulgar.

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