Se a soberania for como a virgindade, isso significa que podemos perdê-la sem que outrém a ganhe.

Tenho um peso na consciência. Na última crónica usei a certa altura a expressão “pessimistas jeremíadas” para me referir às crónicas de Pacheco Pereira, Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. Peço desculpa. Trata-se de uma redundância: uma jeremíada é, por natureza, pessimista. Ainda tentei corrigir enviando uma emenda de última hora para “amargas jeremíadas”. Felizmente, não fui a tempo: uma jeremíada é sempre amarga; outra redundância. Quais eram as opções corretas? Repetitivas jeremíadas. Preguiçosas jeremíadas. Em última análise, redundantes jeremíadas.

Descobri no outro dia que há autores sérios de ciência política (Neil McCormick, num livro chamado Questioning Sovereignty) que se perguntam se a soberania é como a propriedade ou a virgindade. A pergunta vem de outros autores mais sérios ainda, em particular Hegel, e explica-se em duas frases. Se a soberania for como a propriedade, quando alguém perde soberania há sempre outro alguém que a ganha. Se a soberania for como a virgindade, isso significa que podemos perdê-la sem que outrém a ganhe.

Relembrei-me disto ao ler uma crónica de Camilo Lourenço no Jornal de Negócios, cujo destaque era “soberania? ficámos melhor sem ela!” O autor defendia que sendo Portugal um caso perdido, melhor será que os mercados mandem em nós a partir de Bruxelas. Trata-se pois de um entusiasmado crente na teoria da soberania-como-virgindade. Nós já não a temos, mas Bruxelas não a ganhou. Hurra! O problema desta metáfora é não conseguir explicar porque não sentimos qualquer prazer.

Tentem expulsar aquela metáfora da cabeça antes de ler este parágrafo, cuja escolha de imagens é também manifestamente infeliz. Dizia alguém que a escolha dos líderes europeus está entre violar o pacto de estabilidade e crescimento ou violar o tratado do funcionamento da União Europeia. Para evitar a primeira hipótese, os líderes querem entregar à Comissão Europeia o direito de vetar (para já, tacitamente) os orçamentos dos países da União. Como toda a gente sabe, isso seria uma usurpação (tácita) de poderes dos parlamentos nacionais. O que parece que nem sequer se lembraram é que, segundo os tratados, tal mudança não poderá fazer-se sem passar pelo Parlamento Europeu. Esperamos com impaciência.

O Presidente da República chamou a atenção do país para lhe dizer que não ia vetar a lei dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo porque não quer desviar a atenção do país dos seus verdadeiros problemas, que são a crise e o desemprego. E o Benfica. E o Papa. E o Mundial. Teremos os primeiros noivos pelo Santo António. Uma vez previ isto numa crónica. Foi quase uma profecia, embora não uma jeremíada.

O linguísta (e autor anarquista) Noam Chomsky, judeu americano que nos anos 50 viveu em Israel e participou na construção daquele estado, foi agora impedido de entrar em Israel para se poder dirigir aos territórios ocupados e aí dar uma conferência numa universidade palestiniana. Um porta-voz do governo israelita disse: “vamos supor que ele ia falar à tal universidade: para dizer o quê? que Israel pratica o apartheid? que isola os palestinianos?”

O governo israelita quis impedir que Chomsky fosse redundante. Ao proibi-lo de falar, foi mais eloquente do que imaginava.

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