Os especuladores fazem aquilo que se lhes deixa fazer. E não foram eles que apontaram uma arma à Europa e nos obrigaram a fazer uma moeda única sem solidariedade.

Considere um artigo de quando o euro estava em alta. Dizia ele que a moeda europeia corria um risco apreciável de desaparecer nos anos seguintes: bastaria que uma das suas economias mais frágeis e ameaçadas tivesse de abandonar a moeda.

Na altura, seria fácil menosprezar esse artigo – se bem me lembro no Wall Street Journal – como agoirento e implicativo. Hoje seria menos fácil negar-lhe um certo sentido.

Ora vejamos a Califórnia, estado americano muito populoso e produtivo, por si só uma das grandes economias do mundo. A propósito: também está falido. Mas isso não tem um efeito enorme no dólar. Já a hipotética falência da Grécia, que representa meros três por cento do PIB europeu, pode chegar para: 1) transformar a hipotética falência da Grécia em real falência; 2) espalhar o contágio a outros países da zona euro, entre os quais Portugal, que também não é a Califórnia; 3) causar a amputação ou o fim do euro; 4) obrigar ao maior recuo de sempre do projeto europeu.

Mas há uma maneira de sair desta crise em dois passos. É ela os líderes europeus dizerem, com a solenidade suficiente, o seguinte: “Não há economias periféricas nem centrais na zona euro; um ataque a um país da zona euro é um ataque ao euro enquanto todo; e não haverá nenhuma falência na eurolândia porque nós não o permitiremos; teria de falir a zona euro inteira, e isto só aconteceria a dois passos do apocalipse financeiro global, ou seja, não vai acontecer. Muito obrigado por terem ouvido.”

E o segundo passo? Nem há; a crise da crise grega acabou naquele momento. Tal como quando, após a falência do Lehman Brothers, os estados mais relevantes disseram que avalizariam as dívidas de todos os bancos e o contágio foi contido. Agora trata-se de fazer o mesmo, só que com países onde vivem pessoas.

Como é evidente, vai ser preciso pagar para ver. Isso tornou-se inevitável. E os juros alemães subiriam para que os dos outros países descessem: mas em troca a Alemanha ganha uma economia europeia coesa na qual tem a posição central.

E também vai ser preciso fazer qualquer coisa contra os agentes que têm apostado na implosão do euro.

Normalmente, eu acabaria agora a falar dos “especuladores”. Sim, mas, porém, os especuladores fazem aquilo que se lhes deixa fazer. E não foram eles que apontaram uma arma à Europa e nos obrigaram a fazer uma moeda única sem solidariedade, com Banco Central mas sem Tesouro, com orçamento diminuto e sem coesão.

Os “especuladores” podem ser confrontados, com agressividade até. As famosas agências de notação que influenciam os nossos juros participaram na farsa dos produtos tóxicos; mais de 90% daquilo a que deram nota máxima eram latão ou lixo. Não há ninguém na Comissão Europeia para lhes cair em cima com processos e multas? E, já agora: noutra época, com políticos mais audazes – F. D. Roosevelt suspendeu a banca por uma semana -, também os famosos CDS não durariam muito tempo. Pode ser confortável para mim estar no escritório a apostar que a Grécia vai à bancarrota; para os gregos não é (substitua gregos por portugueses).

Sobra espaço? Então, um último conselho sobre o euro. Um burocrata qualquer achou que fazia sentido chamar à subdivisão de uma unidade monetária na língua portuguesa um “cêntimo”. Por favor, sublevem-se. Um centavo é que é – e sempre foi – um centavo.

6 thoughts to “Como acabar com a crise da crise grega

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Parar o TGV e o Aeroporto

    Convém haver uma dose de bom senso de todos e para com todos, e ao se ter que assumir que o País está com bastantes dificuldades também se tem que assumir pela parte de TODOS que é não só necessário , como indispensável repensar e já, todas as prioridades. Para ser exequível que todos mudem de rumo quer em investimentos e/ou gastos individuaisou colectivos, é necessario, é indispensável o Estado dar o exemplo. Assim ao ser pedido ao português comum para ter mais contenção em possiveis empréstimos ao consumo corrente , para o automóvel, para a habitação, tem que o Estado fazer exactamete o mesmo, uma vez que o dinheiro que vai servir para pagr esses “todos” empestimos é o mesmo. Do cidadão a nível individual directamente, a nível colectivo via impostos, pagos, depositados nos Cofres do Estado também pelo mesmo cidadão. Todo o dinheiro, escasso,que hoje, ainda, circulae neste País, tem que ser controlado ao centimo. E se cada cidado não deve – hoje – fazer despesas – não essenciais – para as a quais não tem dinheiro, para as quais tem que pedir emprestado e endividar-se mais se já o está, ou começar a endividar-se se ainda não está, oEstado via gocevno actual, não deve, não pode à custa dos cidadãos endividar-se mais, muito mais– endividar-nos a todos muito mais– para fazer o que – hoje – não é necessário. Não é possivel, não está correcto, não é humano, pedir a todos os cidadões que apertem mais cinto, que façam mais sacrificis, e quem pede – exige – não fazer o mesmo. Não pode ser. Assim estarem maioritariamente de acordo que é necessário não gastar indiscriminadamente, que é necesário poupar, tentar adiar alguns/bastantes projectos para melhores dias, mas o Estado, o Governo, têm que abertamente que dar o exemplo, e face à situação do momento, o que foi previsto há um ano, hoje não é de modo algum concretizável. Logo é para adiar. E assim, temos que ouvir abertamente, sem mais rodeios, que o TGV e o Aeroporto não vão ser feitos. Sem mais . Temos que ouvir o PM e o Ministro das Finamças dizer que estas obras sejam ou não do programa do Goveno, não serão feitas. Não temos dinheiro, não podemos ir pedir ainda mais emprestado para o que nem é – hoje – necessário, logo, não as fazemos. O Governo hoje tem que saber governar com ideias, com prncípios, com atitudes que convençam e cativem a população, e não assim-assim. E o PR tem que conseguir bem entender-se com o PM sobre este tema, e ambos, se possivel em conjunto com clareza virem dizer-nos que estas obras ficam adiadas. Isto por vários motivos: 90% dos portugueses estamos plenamente convencidos de que não são necessrias; 95% dos portugueses fomos demasiado bombardeados com este assunto e não vamos conseguir achar – hoje – que seja um investimento necessário, compensador e adequado ao momento. E mesmo podendo achar-se que alguma oposição está do contra, dado só assim saber estar, não é possiel entendermos qual a necessidade destes investimentos, mesmo que nos chamem a todos de “burros” ,que talvez até nem o sejamos. Asssim temos que ouvir e já , que não vai ser feito. Será a moeda de troca para nos poderem pedir mais sacrificios, para ser possivel o Governo ter o aopio não só de um ou de dois Partidos ou três da oOposição, mas de grande maiorira da população. Caso contrario fica a sensação de que se diz a uns poupem, sejam muito contidos, mas não se sabe ou quer fazer o mesmo. Assim, não! E temos que de facto ouvir todos, os que podem ter poder de decisão e influência comprometerem–se: no não seguimento de TGV, de Aeroporto e a virem com sinceridade comunicar ao País, que não vai em frente. Assim, têm o apoio mesmo que com sacrificos de todos, caso contrario parecemos um País da América do Sul ou de África Sub-Sariana a armar ao rico, quando não te dinheiro para mandar um pobre pedinte tocar uma simples canção..a troco de “uns trocos”..é tempo de haver bom-senso, e tempo de exigir, mas antes dar o exemplo. E hoje é hoje, ontem foi ontem, amanhã será amanhã. E todos ao darem o exemplo têm que aproveitar para falar menos, gritar menos e fazer muito, mas mesmo muito: mais.

    Augusto Küttner de Magalhães

  • Joaquim Silvestre

    Sempre pensei o mesmo do centavo :))
    A ideia da coesão é boa e faz sentido. O senão é o risco de certos países se transformarem em pais com dever de alimentar e dar juízo a países filhos.

  • Miguel RM

    Caro Rui Tavares,
    Como eurodeputado deveria ter algum cuidado antes de sacar da arma. Vou-lhe contar a história dos “cêntimos”, para que não se limite a disparar pólvora seca contra os “burocratas anónimos”. Quando foi introduzido o euro estavam previstas duas aberrações linguísticas: em primeiro lugar, “euro” não seria alterável no plural, isto é, em todas as línguas deveria dizer-se “100 euro”. Em segundo lugar, a subdivisão seria “cent” em todas as línguas. Não tenho a certeza se foi alterado, mas inicialmente, pelo menos, estes dois disparates figuravam na legislação. Os tradutores das instituições europeias, nomeadamente os portugueses, tentaram alertar as autoridades políticas para não fazerem tal disparate. Era-lhes normalmente respondido que se tratava de um compromisso político, que não poderia ser posto em causa. A verdade é que, sorrateiramente, com o apoio (discreto) de alguns responsáveis do Banco de Portugal, lá se fomos impondo os euros no plural e foi decidido adoptar o termo “cêntimos” para a centésima parte do euro. Se se tivesse optado por centavos, como sugere, estariamos a contribuir para uma confusão terminológica inútil, pois teria sempre de se especificar se se trataria de centavos do euro ou do escudo. Pode não parecer importante, mas a língua deve ser adaptada para servir os propósitos de quem a utiliza. Já pensou nos pobres coleccionadores de moedas do futuro, que teriam de estar sempre a descobrir se eram cantavos de escudo ou de euro? Enfim, caro Rui, pode não gostar dos cêntimos, mas pelo menos fica a saber que foram introduzidos com um propósito prático. E quanto aos disparates linguísticos, é verdade que há “burocratas” que os querem impor, mas a verdade é que há também outros “burocratas” que conseguem frequentemente impedi-lo. Como sabe o mundo tem vários tons de cinzento…

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Caro Rui

    O que hoje – 03 Maio.2010 – escreveu no Público, está excelente.

    Parabens.

    um abraço

    Augusto

  • Manuel Duarte Pimenta Damásio

    Estimado Rui Tavares,
    Leio com interesse as suas crónicas no Jornal Público, e sobre a última (3 de Maio), na sua opinião, porquê este “servilismo” aos EUA?
    Se me permite, no Tratado de Lisboa, não está previsto acabarem as chamadas “presidências rotativas”?
    Na prática, parece que o T.L. só está a servir ao Sr. Barroso!! Será?
    Os meus cumprimentos e parabéns!

  • Joao Martins

    Gostei bastante da análise. A minha é um bocado tola mas a metáfora já me ajudou quando explicações mais complexas falharam. Confiar na inteligência dos mercados é pior do que ter uma criança de 5 anos a governar um país. Se eles mandassem tudo, chocolate era o objectivo último… de crise de estômago em crise de estômago.

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