O valor de negócio teria o tamanho de uma melancia; o valor da corrupção activa teria o tamanho de uma tangerina; o valor da justiça teria o tamanho de uma ervilha.

Às vezes tenho ideias para uns gráficos. Imaginem quando o empreiteiro Domingos Névoa foi condenado a uma multa de cinco mil euros depois de ter sido apanhado em flagrante tentando comprar um vereador municipal por 200 mil euros por causa de um negócio com terrenos em Lisboa que valiam certamente acima de 60 milhões de euros. Os sessenta milhões de euros, valor que Domingos Névoa estava disposto a dar pelos terrenos da Feira Popular (na verdade, eles valiam mais e ele lucraria mais) dariam no meu gráfico uma enorme esfera. Os duzentos mil euros, ou seja, o valor que ele achava que bastaria para comprar o vereador Sá Fernandes, dariam uma esfera pequenina. E os cinco mil euros, ou seja, o valor que o tribunal achou que valia o crime que ele tinha cometido, dariam um pequeno pontinho quase irrelevante.

O valor de negócio teria o tamanho de uma melancia; o valor da corrupção activa teria o tamanho de uma tangerina; o valor da justiça teria o tamanho de uma ervilha.

É fácil entender por que ficou feliz Domingos Névoa com a sua condenação, e facílimo adivinhar por que disse ele que continuaria fazendo o que fizera até então. Se o preço estimado de um vereador “difícil” era aquele, imagine-se qual seria o preço de outros políticos e funcionários mais maleáveis. Quando comparado com o valor dos negócios, corromper sai barato.

Mais barato, mais barato mesmo, só o preço que a justiça pôs ao crime de corrupção.

***

Incalculável é o dano que, com uma tal sentença, o país inflige em si mesmo. O país inflige dano a si mesmo quando dá a sensação de que a corrupção é fácil, sai barata e é ridiculamente punida. E o país fica verdadeiramente deprimido quando pensa que este nem é o pior caso: na maior parte das vezes a corrupção não é investigada, nos restantes é muito difícil de provar, e quase nunca chega a ponto de ser julgada.

Além dos danos reais da corrupção, devemos ainda acrescentar-lhe os danos morais: descrença, desconfiança, desânimo. São os efeitos da corrupção que imaginamos existir, a acrescentar aos efeitos da corrupção real.

Não sei se os actores com responsabilidades — políticos, investigadores, juízes — têm ideia de como cada investigação que falha mina o estado do país. Cada uma delas é um ponto de não retorno, seguido de perto por um ponto de não retorno.

É impossível desfazer o mal que cada uma destas coisas nos faz. O caso Face Oculta é apenas o mais recente, o mais angustiante e — de momento — o mais decisivo. Por este andar, o país já se convenceu que foi mesmo possível a um empresário de ferro-velho andar a comprar meio-mundo na administração pública para ganhar concursos, obter informação privilegiada e escapar às sanções que seriam severas contra os cidadãos comuns.

A partir daqui seguiremos a trajectória corrente: falar-se-á muito deste caso para já, aparecerão cenários tremendistas e correrão dilúvios de tinta; depois passaremos para o ritmo da justição, coitadinha, cansadinha, vagarosa. E um dia talvez apareça uma sentença.

E se essa sentença for como uma ervilha — representando o castigo — pronta a ser esmagada por uma melancia — representando os lucros dos criminosos? Nesse dia, muitos portugueses — e eu não gostaria de estar entre eles — chegarão à conclusão de que somos um país de sucata.

[do Público]

3 thoughts to “Um país de sucata

  • Cátia Farias

    O problema político que se deve assinalar tem menos a ver com a individualização ou “pessoalização” do acontecimento do que com a análise da “máquina” que permite a sua idealização e concretização.
    O post ao nomear protagonistas, desabridamente, dá-nos a sensação (porventura equívoca)da existência algum objectivo persecutório, o que seria contraditório com o suposto carácter ético/político da intervenção.

  • Nuno Ferreira

    Caro Rui,
    queria felicitá-lo pela coragem como aborda este tema, porque de jogos de bastidor pouco claros e de palmadinhas nas costas estamos nós (o país)cheios.

  • Alexandra

    Gostei da imagem. As frutas e as leguminosas foram bem escolhidas. O grande problema é que a ervilhinha de que fala, e muito bem, deveria incomodar tanto governo como legisladores tal qual incomoda a princesa no conto de Hans Christian Andersen.Para que tal acontecesse, os senhores a que me refiro necessitariam de ter um carácter nobre e puro.

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