Há povos que são profundamente indiferentes ao que os outros acham deles. Não é o caso dos brasileiros (nem dos portugueses) que vão dar tudo por tudo para não ficar mal na prova olímpica.

Nos slogans publicitários está muitas vezes a admissão daquilo que sabemos que não somos. Aqui há uns anos, o slogan do Rio de Janeiro era “Rio, o Coração do Brasil” — aquilo a que um político português dotado de chamou uma vez uma “meta aspiracional”. Uma meta aspiracional quer dizer: algo que não somos, e que não temos certeza de poder vir a ser.

O Rio de Janeiro, no fundo, sabia que já não era “o coração do Brasil”. Por isso tentava publicitar-se enquanto tal. Já não era o coração político do Brasil, uma vez que perdera a capitalidade para Brasília. E não era o coração económico do Brasil — mesmo os cariocas mais ferrenhos sabem que é de São Paulo, através das estradas e linhas aéreas do país, que se bombeia o sangue industrial, comercial e de serviços que sustenta o país. Pior ainda, o Rio de Janeiro tinha começado a duvidar que fosse ainda o coração cultural do Brasil.

Como vemos, os slogans publicitários traem as dúvidas que temos sobre nós mesmos. Aquele “coração do Brasil” não era já um verdadeiro coração, daqueles que marca o ritmo e bombeia o sangue, mas um mero coração sentimental e piegas, saudosista dos tempos do “homem cordial brasileiro”, antes do anos de chumbo da ditadura militar e dos dias de chumbo da guerra civil criminal.

Não era — e não é — fácil dar a volta a isto. Se o Rio já não era a capital do Brasil, não era a cidade mais rica nem mais produtiva, e provavelmente já não era sequer a mais influente, em que poderia então tornar-se? A sua vitória na candidatura olímpica dá-lhe a melhor hipótese de resposta que teve até agora: o Rio de Janeiro pode ter dificuldades em achar o seu lugar no Brasil, mas tem agora a oportunidade de se reinventar à escala global. Ser a “cidade global brasileira” é algo que está de novo ao seu alcance, e que não poderá deixar escapar.

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Há povos que são profundamente indiferentes ao que os outros acham deles. Não é o caso dos brasileiros (nem dos portugueses) que vão dar tudo por tudo para não ficar mal na prova olímpica. Enquanto eles tentarem lidar com alguns dos problemas intratáveis do Rio a tempo de 2016, seria bom que as nossas instituições — em particular o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Instituto Camões e, multilateralmente, a CPLP — reflectissem no seguinte: pela primeira vez, os Jogos Olímpicos vão disputar-se numa cidade de língua portuguesa; milhares de atletas e voluntários vão começar a preparar-se para o Rio de Janeiro com anos de antecedência e, nalguns casos, desejarão conhecer a língua do país anfitrião; e para a audiência planetária de milhares de milhões de espectadores, o português será uma língua ouvida em todos os eventos daquelas duas semanas. É uma excelente oportunidade: os Jogos Olímpicos não vão ser aqui ao lado — em Madrid — mas isso não quer dizer que nos sejam alheios.

Escrevo isto enquanto fazemos o debate das eleições autárquicas. Em Portugal temos um discurso do poder local — que poderia ser democrático e participativo mas que tantas vezes é apenas um discurso dos pequenos poderes caciquistas — mas falta-nos um discurso urbano. Um discurso urbano eficaz é um discurso que supera o bairrismo. Olhar para as cidades — as nossas e as outras — é o caminho local para o cosmopolitismo.

[do Público]

4 thoughts to “Da falta que faz um discurso urbano

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Suponho que teríamos que olhar para as cidades, com sinceridade, olhando para o que somos, o que deveríamos ser, e como faríamos para lá chegar. Claro que nas autarquícas, como em outras ocasiões, falou-se muito, dissesse muito pouco. Não podia ser de outra forma, é este o modelo estipulado, para estas ocasiões, de TODOS, TODOS. Na 2ª feira, essencialmente em cidades que não Lisboa, quem quer que ganhe, pouco vai querer(conseguir???-será o termo???) mudar. Esperemos por uma nova jovem geração de políticos, desligados de tudo o que até aqui foi feito, para sem fantasias, encarar mais assertivamente o Poder, local e não só. O Porto, tem ainda potencialidades, para voltar a ser o Porto, não necessita de rotúlos, de 2ª cidade, mas assumir-se como o Porto, que já foi…

  • Luis

    DA INUTILIDADE DO VOTO DITO “ÚTIL” – Nas eleições autárquicas de 11 de Outubro o único voto útil é na CDU. Há que reforçar a única força política que já deu garantias de não trair os seus eleitores. Raciocínios do tipo “vamos votar em A para evitar a vitória de B” já mostraram que nada valem — até mesmo porque na maior parte dos casos o dito A é igual ou semelhante ao B. É o caso, por exemplo, dos candidatos PS & PSD à Câmara Municipal de Lisboa. Tão pouco o Bloco de Esquerda dá garantias sólidas de seriedade e correcção política – basta ver o vereador eleito anteriormente pelo BE para a CML, que passou de imediato para o lado do PS.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Ainda bem que todos somos livres não só de fazer os nosos raciocinios, como também de os expor. Uma das vantagens da Democracia e da Liberdade.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Seja em quem cada um ache que deve votar, seja em branco, seja nulo, como demonstração de que “não são aqueles, ou algum deles o escolhido”, em Democracia ir votar é uma forma de se ser democrático.Deixar o “recado” a outros é uma demissão da nossa cidadania…é pena…

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