A bola está do lado de Sócrates, mas as consequências não são as mesmas em qualquer das soluções.

O panorama político em que acordámos hoje é o mais interessante dos últimos anos. Depois deste ano frenético com três eleições, a política não sai de cena. Nunca uma legislatura prometeu ser tão diferente da anterior.

E isto tudo apesar do que não mudou. Comecemos por aí, que é mais fácil.

Em primeiro lugar, o eleitorado português continua firmemente de esquerda. A esquerda nos seu conjunto tem sempre mais de cinquenta por cento dos votos, ao passo que a direita não descola dos quarenta por cento. O eleitorado não tem confiança na maioria absoluta; mas quer ser governado à esquerda. Qualquer acordo à direita será feito contra uma maioria do eleitorado.

Outra coisa que não muda: no PSD estão os políticos mais incompetentes do país. Partido preguiçoso e quezilento, que evita ao máximo definir-se ideologicamente para poder gastar as suas energias com purgas internas, o PSD conseguiu repetir a miséria de resultado que tinha tido há quatro anos atrás. Desta vez, não pode sequer culpar um cabeça-de-vento como Santana Lopes pelo resultado. A culpa vai direitinho para os disparates de uma senhora e um senhor muito sisudos e responsáveis — Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva. Contra um governo em perda, e com a responsabilidade de lutar pela vitória, o PSD foi tão notoriamente incapaz que perdeu votos, dinâmica e iniciativa para o CDS à sua direita.

***

Acima de tudo, não muda o partido vencedor, que é o PS. E não muda o primeiro-ministro. Mas não mudando isso, José Sócrates terá de ser um primeiro-ministro muito diferente.

O CDS e o Bloco foram os outros dois grandes vencedores da noite, embora de formas diferentes. O CDS conseguiu o resultado com mais possibilidades, mais dinâmico, e podendo ainda capitalizar sobre os restos do PSD, que ficará mergulhado no caos durante muito tempo. Não me admira que Paulo Portas esteja risonho. O Bloco cresceu para o dobro de deputados e aumentou em muito a sua votação — validando de forma consistente, de eleição para eleição, o seu trajecto.

A partir de amanhã, começam a fazer-se as contas às maiorias possíveis. Tendo todos os partidos excluído as coligações de governo, o mais provável é que se discuta medida a medida, no parlamento.

Um resultado ideal seria aquele que permitisse mais tipos de formação de maiorias. Não atando as mãos a nenhum partido em particular, esse resultado daria vários desenhos possíveis.

No entanto, não foi isso que aconteceu. Sócrates tem duas maiorias possíveis. Ou se vira para a direita, e vai fazendo maiorias com o CDS. Ou inicia uma conversa a sério com o PCP e o Bloco para poder governar à esquerda.

A bola está do lado de Sócrates, mas as consequências não são as mesmas em qualquer das soluções. Se começar a pender muito para o CDS, fracturará o seu próprio partido e ficará refém de Paulo Portas. O BE e o PCP não deixariam de o lembrar ao eleitorado de esquerda.

Sócrates terá outra saída. Depois dos discursos de vitória, verá que perdeu a maioria absoluta, e que deixaram de se justificar os monólogos, mesmo no interior do seu partido. Se quiser começar a criar um diálogo à esquerda, a conversa terá de ser séria e profunda e, não tenho dúvidas, difícil de parte a parte a parte (três partes: PS, BE e PCP). O país continua à espera.

[do Público]

6 thoughts to “Tomem e desembrulhem

  • Nuno Ribeiro Ferreira

    Rui Tavares, antes de mais, queria dar-lhe os parabéns por um excelente texto que define, clara e objectivamente, aquilo que foi a noite eleitoral e aquilo que vai ser a futura governação. Concordo em absoluto que uma viragem de José Sócrates à direita, para P.Portas, representa fazer exactamente o oposto daquilo que o país quer. E o que os portugueses querem é ser governados à esquerda, com o PC e o BE, tendo como PM José Sócrates. Isto é mais do que claro e não é preciso ser politólogo para o concluir. Claro que isto exigirá de José Sócrates capacidade de diálogo e de negociação, que foi perdendo ao longo destes 4 anos, porque também nunca precisou disso. Agora, das duas uma: ou (re)aprende a dialogar e a negociar à esquerda, ou então não vai conseguir segurar o parlamento por muito tempo… Claro que os feitios chocam imenso, e Sócrates Louçã é uma díade no mínimo explosiva. Mas creio que Louçã e Jerónimo de Sousa não vão ser parvos a ponto de tomarem posições irredutíveis e radicalizadas, impedindo Sócrates de negociar com eles. É que se eles tomarem estas posições que impossibilitam o entendimento da esquerda maioritária, Sócrates virar-se-á erradamente para Portas e as pretensões da “esquerda à esquerda do PS” serão simplesmente ignoradas.Vamos aguardar para ver. Fiquei muito feliz em termos, novamente, uma assembleia da Républica e um Portugal de esquerda.

  • A. Nóvoa

    Sócrates tem tantas responsabilidades no diálogo à esquerda como os outros, Jerónimo e Louçã. Depois, para além dessas, tem mais uma pequena carga nos ombros: governar (esse pequeno pormenor que se deve exigir aos políticos, porque apesar de tudo e entre outras coisas ainda é para isso que se fazem eleições). Ora, como nem Jerónimo nem, sobretudo, Louçã, fazem ou sequer querem fazer uma pequena ideia do que isso seja, está montada a tenda para uma fantochada pegada à esquerda. E se nestes dois anos a direita se endireita então o poder cairá irremediavelmente nas suas mãos nas próximas legislativas. Jerónimo e Louçã serão basicamente e por certo coveiros da esquerda, e provavelmente do país. Parabéns.

    Quanto ao resultado do BE, é um fiasco. O BE não serve para nada neste momento, com concepções de economia primitivas e completamente ultrapassado pelo PS nas questões ditas “causas fracturantes”, dado que o PS tem por norma tentar de facto levar à prática as ideias que defende, em vez de se limitar a fazer barulho e adicionar canga ao anedotário político nacional.

  • Diogo Mesquita

    Caro Rui,

    Já há tempos tive para lhe escrever um e-mail. Na altura queria dizer-lhe o quanto gostava de o ler, que o rui tinha uma capacidade de síntese e de captar o âmago da questão incomparável para mim e que, enfim, era a minha parte favorita do público que eu teimava em acabar de ler com um: “ah, muito bem visto, muito bem posto”.

    Mas pergunto: O que se passou desde que foi eleito para o parlamente europeu?
    Desde esse momento, e permita-me a franqueza porque se lho digo é porque o estimo, o rui está um chato. Já só fala da politiquice caseira e sempre do ponto de vista de quem perdeu completamente a isenção e a objectividade (ou as restantes subjectividades). Já não nos fala de terramotos, da nossa cidade, de história, da política de valores maiores, e muito menos do mundo, que como sabe, não se esgota em Sócrates ou na missão do BE.

    O espaço da sua coluna passou a ser uma qualquer tribuna de um comício do BE. E corre o sério risco de começar a ser comparado com um disco estragado que repete sempre o mesmo. O Rui perdeu o tom do distanciamento.

    Peço-lhe que não confunda as minhas palavras com qualquer inclinação político partidária. O que eu lamento é a absorção pela massa indissociável que é o jornalismo Português de um dos últimos satélites que ainda me inspirava.

    Cumprimentos,

    Diogo Mesquita

  • rui tavares

    Caro Diogo:

    Duas coisas. Momento eleitoral e falta de tempo. Também sinto falta de escrever sobre outras coisas, veremos se a actualidade deixa…

    Um abraço e não lhe levo a mal o comentário

  • Rui Sousa

    Caro Rui Tavares, devo dizer, antes de mais, que não tenho qualquer ligação a partidos em termos formais ou sequer ideológicos. Tenho e procuro manter sempre a isenção ( tanto como é possível , como é óbvio ) e consequentemente a devida distância na análise destas questões e principalmente na hora da decisão do meu voto que é o que mais me importa. Por isso não deixo de ficar espantado sempre que os partidos políticos e os seus líderes acenam com chavões e frases feitas para adormecer ou conquistar eleitorado não pensando um segundo sequer que devem, antes de mais, respeito pela inteligência das pessoas. As pessoas não são todas parvas. Sendo assim e não tendo eu nada, mas mesmo nada que ver com o P.S. e com o Sócrates devo dizer que no meu modesto ponto de vista ele foi um bom P.M., senão mesmo o melhor P.M. dos últimos larguíssimos anos. Há duas coisas que normalmente lhe apontam para o diminuírem: ter mentido e ser arrogante ( a questão da concordância ou não das politicas são questões ideológicas que deixarei para outra altura ). É verdade que o P.M. mentiu em relação à questão dos impostos ( não sei se propositado ou não ) e eu não gosto de mentiras, e sei que se ele tivesse dito que aumentaria os impostos não teria ganho a maioria. Mas depois disso houve um bom resultado com o deficit, diminuindo-o para números que ficaram de acordo com os objectivos propostos. Conclusão, alcançaram-se os objectivos. Foi mentira sim senhor, mas não foi para interesse próprio. O país saiu beneficiado. Depois veio a crise e a oposição ( toda, sem excepção ) cavalgou a onda tentando fazer-nos crer que o responsável pelo desemprego, pelo deficit, e pelas falências era culpa do governo ( estão a brincar connosco, não ? ). Houve erros? Claro que sim, mas eu acho que os políticos falham redondamente quando tentam colocar tudo no mesmo saco e tirar aproveitamento das desgraças alheias só por mero interesse partidário/ pessoal. O que esta vitória diz é que apesar das campanhas baixas ao P.M. que existiram durante esta legislação as pessoas continuam a achar que ele merece governar o país e confiam nele. Chamam-lhe arrogante porque é fiel às suas ideias e à sua consciência. Mas quando o líder do B.E. exala nos seus discursos e comentários um ódio e raiva visceral pelo P.M., isso já não é arrogância? E já agora, em relação ao titulo deste post “ Tomem e desembrulhem “ não há aqui uma carga de arrogância e prepotência? Eu não sou inocente nem acredito na inocência de quem está no poder, mas tb não sou inocente em relação à oposição. Não sou inocente em relação às campanhas vergonhosas da TVI/ Manuela Moura Guedes, às campanhas de asfixia democrática e para acabar às escutas de Belém e a toda esta palhaçada do Presidente da Republica que mais uma vez serviu logo de onda para que alguns cavalgassem. José Sócrates ganhou as eleições, mas o que a oposição diz é que o governo, ou faz o que a oposição quer ou não vai conseguir governar. Dizem que o P.M. tem que ser dialogante ( e dizem-no com toda a arrogância de quem sabe que tem um P.M. refém ). Dizem que ele tem que ceder, mas não se mostram dispostos a ceder, eles próprios. Expliquem-me como é que se consegue ser dialogante se a oposição não se mostra disponível para dialogar ( faz-me lembrar a fenprof e o seu brilhante líder )? Isto não é arrogância? Não, dirão alguns, é a defesa dos trabalhadores. E os que votaram no Sócrates não são trabalhadores? Tenham um bocadinho de vergonha, todos, sem excepção. A lógica do eixo do mal, de que uns são santos e outros pecadores, já não há pachorra. Fariam todos melhor se cada um assumisse as suas responsabilidade e colocassem o interesse do país acima dos seus próprios interesses. E pronto acabei tb com um chavão já que os políticos gostam tantos de chavões.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Caro Rui Tavares
    Talvez seja efectivamente uma oportuna altura, de se começar a falar muito menos de política, ou melhor da nossa politica caseira, e alargarmo-nos a outros temas. O Rui tem suficientes conhecimentos para isso fazer. Desafio-o – se achar por bem- de começar a falar/escrever sobre a UE, sobre a NATO sobre os limites de países a entrar na UE, sobre qual o desecho/ou não de entrar a Turquia. Qual a posição de uma União unida, num mundo globalizado. Qual as possibilidaddes de melhor humanizar uma globalização excessivamente economica. Fugindo Utopias entrar, assumir realidades!!(sei que não gosta dos !!!!!, mas não é provocação, é ser mau escritor)

    Um abraço

    Augusto Küttner de Magalhães

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