Mas como em qualquer desenho, é preciso haver quem o saiba interpretar. E são os partidos menores, que mais beneficiam desta dispersão de votos, que mais interesse têm em demonstrar que ela não é danosa para o país.

Nas eleições de domingo, só uma grande surpresa não nos dará cinco partidos com lugares no parlamento, todos eles fruto de votações. Dois partidos entre os 25 a 30%, três partidos em redor dos 10%. Poderíamos dizer “dois grandes partidos” e “três pequenos partidos”, mas talvez não seja desajustado pensá-los como partidos na casa média-maior, dois deles, e média-menor, os três restantes.

Que país é este? A Alemanha.

Embora sejam mais conhecidos os sistemas bipartidários, como o dos EUA; — ou tripartidários imperfeitos, como na Inglaterra; ou mesmo tetrapartidários, como foi Portugal desde o 25 de Abril até ao aparecimento do Bloco de Esquerda — não é tão incomum aquilo que teremos em Portugal a partir do próximo domingo. A prova é que partilhamos com a Alemanha, maior país da UE, um desenho político quase feito a papel vegetal.

Na Alemanha existe um partido do centro-direita, dirigido por uma mulher (confere), e outro do centro-esquerda dirigido por um homem (confere) mas que se chama social-democrata (esta não confere). E depois existem três outros partidos: um partido Liberal (infelizmente, não confere com o CDS), um partido Verde (precursor dos partidos desse género) e o partido da Esquerda. A Esquerda — Die Linke — é a aquisição mais recente do panorama alemão, e partilha características com o Bloco de Esquerda, com o PCP, e até com a Ala Esquerda do PS, uma vez que Oskar Lafontaine é uma espécie de Manuel Alegre que saiu do grande partido do centro-esquerda.

Em Portugal passámos de um desenho em quadrado para outro em pentágono e, pelo que me parece ser a tendência previsível das próximas eleições, o pentapartidarismo vai sair reforçado do próximo domingo. E a questão é: será sustentável?

***

Muita gente, pegando no exemplo alemão, crê que seria necessário enveredar por um governo de Bloco Central para ancorar a governação ao centro, conter as franjas e recuperar o bipartidarismo.

O que não percebem é que o exemplo alemão (além da simples lógica) lhes destrói o argumento. Juntar os dois partidos do centro torna-os indistintos, e seriam os restantes três partidos a ocupar por inteiro o lugar da oposição. A prazo, o país ficaria menos bipartidário e certamente mais pentapartidário, exactamente o contrário do que pretendem os defensores do Bloco Central.

Além de que o caso das escutas matou o Bloco Central antes da nascença. Como vai esta gente que se detesta confiar numa mediação de Cavaco quando este perdeu toda a imparcialidade, num caso sem precedentes na Presidência da República?

Não é difícil adivinhar que o pentapartidarismo não me assusta. Este pentágono político reflecte um país que é plural, permite várias escolhas para várias pessoas, e (idealmente) várias soluções legislativas em geometria variável.

Mas como em qualquer desenho, é preciso haver quem o saiba interpretar. E são os partidos menores, que mais beneficiam desta dispersão de votos, que mais interesse têm em demonstrar que ela não é danosa para o país.

É bom que não seja mesmo. Vamos para as eleições de domingo com duas certezas apenas. Saíremos delas com um primeiro-ministro mais fraco, por culpa dos resultados, e um Presidente mais fraco, por culpa dos seus disparates. O parlamento é chamado a estar à altura.

[do Público]

5 thoughts to “O pentapartidarismo num país perto de si

  • ze

    Saimos destas eleições com um país decididamente melhor. Onde a discussão vai tomar o lugar das decisões unilaterais e onde se espera que a participação popular nas decisões aumente. Onde não há maiorias absolutas há esperança!

  • ze

    Saimos destas eleições com um país decididamente melhor. Onde a discussão vai tomar o lugar das decisões unilaterais e onde se espera que a participação popular nas decisões aumente. Onde não há maiorias absolutas há esperança!

  • Tiago

    Comparar o O. Lafontaine ao M. Alegre????? Coitado do Lafontaine que nao te fez mal nenhum…

  • Nuno Sousa

    Caso se verifique a 27 de Setembro uma cristalização das intenções de voto aferidas pela sondagem de hoje, então a distribuição do voto dos 12% de indecisos ainda pode alterar alguma coisa, de forma substancial. Tal como no caso dos «cegos» do Santa Maria, é esperar para ver.

  • Jorge Conceição

    Na verdade, com os “prognósticos” do dia seguinte, cá está essa distribuição assegurada, quer na Alemanha, quer em Portugal! E semelhança também na subida dos partidos mais à esquerda na Alemanha e em Portugal: Die Linke e o Bloco de Esquerda, e mesmo Der Grüne e a CDU.

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