Mas como lembram os mesmos budistas, esse karma não é um azar nem uma fatalidade; é a consequência do caminho que escolhemos.

Uma pergunta útil nestas situações: se fossem outros a fazê-lo, como me sentiria? Nem sempre é possível responder com imparcialidade. Mas às vezes é só usar a memória.

Em 2005 os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI foram cancelados após protestos e reclamações do governo Santana Lopes. Eu lembro-me de como fiquei. Indignado. Não fui só eu: toda a esquerda ficou furibunda e uma boa parte da direita envergonhada.

Quando comentamos o caso do Jornal Nacional de 6ª feira [JN6], que foi cancelado pela mesma estação, convém ter isto em memória.

O que se passou no “caso Marcelo” foi: reclamações do governo e cancelamento do programa, justificado como decisão empresarial. O que se passou no caso JN6 foi: reclamações do governo e cancelamento do programa, justificado como decisão empresarial. Podemos acrescentar que, depois do cancelamento, Sócrates se portou melhor do que Santana, mas o mal já estava feito. Infelizmente para quem, mesmo não sendo do PS, gostaria que um governo da esquerda portuguesa fosse impoluto nestas coisas, isto é o que sabemos sobre ambos os casos. A toda a gente com memória, resta meditar e escolher: ou estiveram errados da primeira vez quando se indignaram, ou errados da segunda quando desculparam. Não podem é indignar-se da primeira vez e desculpar da segunda.

***

Eu não sei se o governo de José Sócrates acabou com o JN6. Espero que não. Mas eu vi José Sócrates enfurecer-se contra o programa; eu vi José Sócrates usar congressos do PS para atacar jornais e televisões; eu vi José Sócrates comentar em pleno parlamento linha editorial do programa e como ela dava jeito a alguma oposição. Detestei de cada vez que vi; mas José Sócrates é dono do seu destino. Ele deveria saber que para ser um defensor da liberdade de imprensa, enquanto primeiro-ministro, não basta ter a consciência tranquila e depois dizer o que se quiser. É preciso, quando se detém o poder político, saber agir e (sobretudo) abster-se de agir para preservar a liberdade de imprensa. José Sócrates não soube fazê-lo; e não venham dizer-me que de Sócrates vieram “só palavras” e não actos. Em política, palavras são actos. (O que o governo Santana Lopes fez com Marcelo também foi “só palavras”).

De uma forma mais genérica, não é a primeira vez que isto sucede. O governo PSD/CDS fez coisas que indignaram a esquerda. De cada vez que o governo PS fez o mesmo, foi preciso escolher: ou estive errado antes ou estou errado agora. Como a avaliação política não é uma soma de pequenos casos, ainda podemos acrescentar alternativas: o governo PS fez algumas coisas iguais às do PSD/CDS, mas as que fez diferentes compensam as outras; o governo PS agiu assim mas vai agir de outra forma no futuro; o governo PS agiu assim mas é o melhor que se pode esperar agora. Elas estão aí, à disposição de toda a gente.

O que não se pode dizer é que o governo PS não tenha tido todas as condições que pediu: uma maioria absoluta e a maioria das vozes pedindo-lhe que fosse duro, teimoso, até arrogante. E com essas condições espalhou a agressividade e a má vontade de que agora se queixa. Aquilo a que os budistas chamam karma.

Mas como lembram os mesmos budistas, esse karma não é um azar nem uma fatalidade; é a consequência do caminho que escolhemos.

[do Público]

11 thoughts to “Mau karma

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Parece-me que se está a dar demasiada importância a este tema, ficando outros muito mais prementes por tratar….mas…é assim que ainda funcionamos, se tivessemos cá um Berlusconi, como seria?

  • Paulo Lopes

    Acho que este texto omite uma questão importante – os programas televisivos de Marcelo Rebelo de Sousa e Manuela Moura Guedes não poderiam ser mais diferentes na qualidade e no estilo adoptado. Este aspecto revela, pelo menos, o nível de tolerência existente em cada um dos PMs.

  • veríssimo

    A minha primeira reacção ao acto até foi de um certo regozijo, porque não gosto da jornalista,porque as poucas vezes que vi o jornal não gostei, porque, enfim, a TVI nunca foi a “minha estação.”
    No entanto não estou de acordo com a censura. Sei como era antes de 25 de Abril.Os visados, no caso de se sentirem injustiçados, deveriam recorrer aos tribunais .
    Como diz Mario Crespo, muitas coisas se souberam e a justiça teve que avançar, devido às denuncias feitas nesse telejornal.Fosse por que fosse…

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Também bem me lembro da verdadeira censura que tinhamos no antes 25Abril, e espero que para lá nunca voltemos.
    Mas mesmo para se dizer mal, até “podendo” ser verdade, tem que se elevar o nível, caso contrário passa a valer tudo. É necessário um auto-limite, e não ter obsessões excessivas, que dão audiência, sem dúvida, mas não ajudam, não informam, não esclarecem.
    Há uns tempos a esta parte penso que também o Mário Crespo está demasiado “focado” em derrotar o actual PM, logo deixou de ser isento. Como é evidente tem muito mais nível do que quem se supõe possa eventualmente ter sido censurada. Mas mesmo que falando de censura, ou possivel censura, passemos para outras pessoas, e deixemos a em questão, ficar em lume brando, enquanto entender que deve estar.Ninguém é insubstituivel.

  • Nuno Ferreira

    Para além do mau Karma que se vem instalando, que eu apelido de CENSURA, este vai alastrando, como é o caso de Censura do Livro do ex-inspector Gonçalo Amaral, o que é um péssimo sinal. É nestas ocasiões que o liberalismo capitalista revela a sua face mais negra, ou seja, quando o status quo é afectado, esquece-se imediato a democracia, as regras do mercado, a liberdade de opinião e expressão, e se for necessário os direitos.
    O que revela, que o regime que nos governa rotativamente desde 1974, está bastante amedrontado com as alterações que se aproximam e consolidam, mas não é caso único, na própria Europa, como por exemplo na Alemanha, nos resultados regionais os media dão destaque aos resultados do SPD e à queda da CDU, não ao Die Linke que conseguiu no Oeste passar dos 2,1% para um resultado acima dos 20%, lá como cá tentam-nos vender uma vez mais que só o rotativismo liberal é o único caminho.

  • Carlos Laia

    Discordo.
    1) “Reclamações do governo”: no caso do governo PSD, não me lembro de declarações públicas (pelo menos de ampla difusão) a criticarem o programa de MRS. Onde estão as “reclamações”? Penso que terá existido algum tipo de actuação nos bastidores.
    No caso do PS, classificar de “reclamações” a defesa (opinão expressa no congresso – “usar o congresso” ?) de quem é atacado num espaço dito jornalistico (fabricado ad hominem) sem direito de defesa é, a meu ver, desadequado (no mínimo).

    2) Para mim, o mais grave é que parece que Rui Tavares defende a limitação dos direitos civis e constituicionais do PM (qualquer que ele seja?), pela simples razão de que é poder. Já agora, essa diminuição (limitação à liberdade de expressão) só é aplicável ao PM ou serve também para qualquer membro do governo? Porque não incluir outros orgãos de soberania, como PR, AR (deputados), autarcas e não apenas o governo?

    Mas, e já agora, só não podem (ou não devem?) expressar-se quando a “peça jornalistica” tem qualidade abaixo de cão ou já é licito defenderem-se perante ataques oriundos de um “melhor ou mais isento jornalismo”?

    Queria apenas perguntar: na opinião de Rui Tavares, qual poderia ser a atitude correcta de um qualquer PM perante um JN6?
    (penso que não posso aceitar como resposta a opção de não fazer nada (já que fazer = falar, pois palavras = actos, por seria desumano neste caso).

    Carlos Laia

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Boa tarde

    Como é evidente qualquer comentário deve ser feito com bom-senso.
    Não chega dizer-se que existe censura, que tem que não existir.

    Quanto ao Jornal de 6ª feira, penso que a senhora que o fazia não merece que se perca mais tempo com ela!
    Espera-se que seja passado, e seja usado por quem não tiver outros argumentos para atacar o actual/ainda PM. E há mais……

    Quanto ao senhor que MANDA na Madeira, gostava de entender, dado não o conseguir , como consegue insultar tudo e todos desde que é Governador e nunca ninguem reage, e como diz palavroes em publico, e todos ficam a rir…
    Não se quer censura, mas sem bom-senso, perde-se o direito a poder livremente falar!!
    Passa a bandalheira e não liberdade.

  • Miguel Almeida

    Eu li há pouco tempo o livro de Rui Tavares sobre o Terramoto de 1755 e pensei para mim aqui está um livro com um nível raro ver-se em Portugal e um historiador e escritor de inteligência.
    E agora leio este artigo… que só mostra que a inteligência pode ser muito mal usada.

    O problema é que não há tal coisa como mau karma em Portugal. Se há só afecta pelo contrário os que tentam mudar as coisas para o melhor. O “mau karma” que o PM está a sofrer vem dos vários interesses que foram perturbados nas suas tentativas de reforma, entre os quais os professores; do facto que muitos Portugueses pediram por dureza e determinação em ir para a frente com as reformas que são tão necessárias neste país, mas quando foram de facto para a frente perderam o entusiasmo com a realidade dos esforços necessários; grande parte dos Portugueses também têm uma memória muito curta e esquecem-se da balbúrdia completa dos governos anteriores e da comparativa eficiência e iniciative deste; e por fim, os partidos da oposição só têm sabido sabotar a cada etapa, e com a descida de popularidade do governo estão a atacar como lobos enraivecidos, usando campanhas de falsidades e calúnia nos media dignas da FOX news, da qual a sra. Moura Guedes era um exemplo de primeira. É claro que um político, inclusive o PM, se pode defender face a jornalismo radicalmente tendencioso e de ataque.

    Este artigo também um bocadinho nessa tendência, e se há tal coisa como mau karma este artigo tresanda a isso.

    Eu já não vivo em Portugal desde os 15 anos e não tenho nenhuma ligação ou paixão por qualquer partido, incluindo o PS. Por natureza sou um progmatista e um centrista. Mas, tendo vivido em 4 outros países entretanto, não tenho grande dúvida que o actual PM tem demonstrado mais coragem e iniciativa em resolver problemas de base que a vasta maioria dos políticos que aí andam pela Europa e pelos EUA.

    O que é certo é que não vai ser o Francisco Louçã que vai adiantar alguma coisa em avançar Portugal. Um homem que admitiu numa entrevista há alguns dias que eu li quando estava em Portugal de férias, que as suas ideias políticas não tinham mudado desde os seus 15 anos de idade! O sr. Rui Tavares fazia bem em encontrar um melhor outlet para as suas energias.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Citando-o:
    Mas, tendo vivido em 4 outros países entretanto, não tenho grande dúvida que o actual PM tem demonstrado mais coragem e iniciativa em resolver problemas de base que a vasta maioria dos políticos que aí andam pela Europa e pelos EUA.

    W acrescento, seja o senhor arrogante, mal-disposto, bem-vestido, etc, etc, mesmo cá em Portugal começou reformas que ninguém teve coragem de fazer. Mas as “uniões” do contra fazem com que tudo possa correr mal = força dos professores a não pretenderem qualqurr tipo de avaliação (eu que eu disse!!!!!!!!).
    E se há duas semanas eu não fazia a minima ideia em quem votar e certo que não seria na direita – nunca foi! e já não sou propriamente jovem…- , iria colocar X em todos. Hoje, mesmo com minoria vou votar continuidade – dizer isto antes -hoje, agora – é perigoso, dado ser mais natural que ganhe o PSD e que o Bloco, que tem que passar a assumir-se como Partido tenha uma forte votação!Logo vão ambos e mais o CDS incomodar-se a amesquinhar o PS se este perdr…vai ser um rosário do que de mal foi feito…

  • Nuno Sousa

    Querer pôr em planos idênticos os casos Moniz/Guedes e Marcelo é bem mais custoso do que comparar este texto com um exercício de cama elástica, daqueles cheios de piruetas.

    Apenas duas coisas:

    (1) no caso Marcelo a questão da existência ou não do chamado «contraditório» num programa de opinião não se punha; o JN6 alguma vez se vendeu como opinião?;

    (2) soube-se que Rui Gomes da Silva acabou com o programa de Marcelo, não se sabe se Sócrates acabou com o de Moniz/Guedes; é pena que para alguns este pequeno detalhe seja irrelevante para um julgamento sumário;

    Bom, há pelo menos uma coisa de que todas as sondagens nos parecem pôr a salvo: uma maioria absoluta do BE. Alegria, alegria.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Subscrevo:

    Bom, há pelo menos uma coisa de que todas as sondagens nos parecem pôr a salvo: uma maioria absoluta do BE. Alegria, alegria.

Leave a comment