Acredito que seja vedado ao jornalismo adoptar a pessoalização e a subjectividade nos seus géneros mais noticiosos. Mas o que está a acontecer é o contrário: no afã completamente ultrapassado de atingir uma informação neutral, o jornalismo corre o risco de neutralizar os seus géneros mais críticos e opinativos.

Mais do que uma coisa interessante ou simpática, entender a linguagem é uma coisa necessária. A comunicação assente na linguagem é o nosso oxigénio enquanto civilização humana. Mas lá porque todos respiramos — ou lá porque o oxigénio é invísivel — não há desculpa para não meditarmos sobre ele.

Sobre a comunicação, as opiniões taxativas e as tiradas de autoridade são tão frequentes quanto mais o objecto é fugidio. E contudo há um princípio da incerteza só para a comunicação. Como só podemos descrever a linguagem através do recurso à própria linguagem, não é possível delimitá-la nem circunscrevê-la.

Consideremos as taxativas opiniões sobre “como a internet vai matar os jornais”. Baseiam-se elas em teses mecanicistas sobre “modelos de negócios” e “substituição tecnológica”. Digo “mecanicistas” porque parecem ideias de alguém que olha para o motor de um carro. Mas os jornais, e a imprensa em geral, não são feitos como motores de carros: são feitos de linguagem. E não vejo ninguém olhar para a linguagem e, em vez de fazer previsões, entender o que já aconteceu na relação entre internet e imprensa. Porque é aí que está a chave.

***

Então: se pensarmos na razão do sucesso dos blogues veremos que ela não se encontra em modelos de negócio nem em substituições tecnológicas, mas na linguagem que eles se permitem usar. A linguagem dos blogues é assumidamente pessoal, subjectiva e crítica. Ao contrários dos jornais, os blogues não passam a vida a tentar ocultar as suas motivações. Pelo contrário, não cessam de as revelar, pois acham que os seus leitores aguentam bem a dose suplementar de narcisismo e, tendo acesso a um panorama diversificado, saberão fazer a destrinça entre aquilo que é dito e aquilo que deveremos pensar.

Acredito que seja vedado ao jornalismo adoptar a pessoalização e a subjectividade nos seus géneros mais noticiosos. Mas o que está a acontecer é o contrário: no afã completamente ultrapassado de atingir uma informação neutral, o jornalismo corre o risco de neutralizar os seus géneros mais críticos e opinativos.

E ocorre neste momento uma polémica neste jornal entre o provedor do leitor e o crítico João Bonifácio que, sendo minúscula na sua génese (saber se o crítico ofendeu o Belenenses com uma metáfora ou se tinha o direito a dizer que não gostava da banda que tocou num festival), é já crucial para o entendimento futuro destas questões.

Espanta-me nessa polémica faltar uma reflexão sobre as diferenças entre géneros jornalísticos e sobre os diferentes recursos estilísticos que eles convocam. E nessa ausência corre-se o risco de deixar estabelecer precedentes perigosos. Passar a ser matéria de decisão “neutral” a admissibilidade de uma metáfora imprevista ou a individualização de um critério de gosto (ou desgosto, no caso) é de facto o “fim da crítica como a conhecemos”, como disse um leitor no blogue do provedor. Ambos os recursos foram desde sempre utilizados pelos críticos para criarem a “voz própria” que é essencial, não só para eles, mas principalmente para os leitores.

É que essa voz própria sempre fez parte das regras daquele subgénero jornalístico, como também da crónica. Aliás: é a essa tradição, se polémica tanto melhor, que os blogues vêm hoje beber o elixir da sua juventude. É irónico, não é? Se o jornalismo impresso alguma vez acabar foi porque, por desatenção à linguagem, se esqueceu da pluralidade de estilos e vozes que sempre teve.

[do Público]

2 thoughts to “O oxigénio

  • Patrícia França

    Ora aqui está um assunto que merecia ser mais vezes trazido para o debate público. Há um livro muito interessante de José Rebelo (José REBELO (2000). O discurso do jornal. Lisboa: Editorial Notícias) que trata destas questões com pormenor. Há um comentário específico que defende, precisamente, que quanto mais o sujeito se mostra no discurso, mais esse discurso se torna transparente, quanto mais ele se retira, mais o discurso se torna opaco – e opaco não significa neutro:
    “Se nos situarmos […] no eixo da dictização, o grau máximo de transparência, ou o grau mínimo de opacidade, corresponde […] à presença máxima do sujeito da enunciação ou das suas marcas. À medida que o sujeito se retira, que desinveste, diminui a transparência do enunciado. E aumenta a sua opacidade […]” (p. 75).
    E este argumento não serve só para o discurso do jornal, serve também para o discurso científico:
    “Casos há em que o discurso ideológico, produzido por um dado enunciador, se caracteriza, sobretudo, pelo apagamento deste e pela prioridade concedida ao objecto. Neste segundo caso, o discurso ideológico como que se confunde com o discurso científico.” (p. 77)
    Quanto mais neutro um discurso se mostra, menos transparente ele se torna, com todos as implicações que isso traz.
    Recentemente, na mesma linha, a revista Courrier Internacional (versão portuguesa) de Julho de 2009, trazia um comentário de Andeï Arkhangelski, cronista russo, sobre,precisamente, a subjectividade na imprensa:
    “A coisa mais importante que os jornalistas devem à sociedade é a verdade que, como a consciência, não pertence à categoria das noções objectivas. […] A verdade não é a mesma para todos, mas, se não houver o desejo de trasnmitir a sua própria verdade, nenhuma verdade é possível. […] o jornalismo de autor é o mais objectivo de todos. Só posso basear-me na opinião de um jornalista que não esconda a sua subjectividade. A principal garantia da independ~encia da imprensa é o compromisso dos seus actores, os jornalistas […].

    Talvez seja necessário rever a questão da neutralidade no jornalismo.

  • rui lucas

    Li com muita atenção,como é meu hábito,o seu texto,no Público de ontem.
    Desde o tempo do “ping-pongue”,habituei-me a lê-lo e a apreciar a sua capacidade de argumentação,sempre bem fundamentada.
    Claro que estou de acordo com o que escreveu.
    Eu vejo a questão de um ângulo diferente.
    Os jornais amedrontaram-se com a net e pretendem ter uma intervenção ampla neste domínio.Criaram os seus próprios espaços e os seus blogues,o que acho perfeitamente legítimo.
    O que me parece errado,na estratégia dos jornais,é a criação dos jornais on-line,muitas vezes mais completos que a edição em papel…
    Continuo um consumidor compulsivo do “papel”.
    Por vezes,para ler o que me interessa,teria que comprar o papel e fazer uma assinatura on-line,o que excede o meu orçamento.
    A questão da linguagem é como diz.
    Eu,que não tenho grande jeito para escrever nem uma base sólida de argumentação,posso dar-me ao luxo de “mandar uns palpites”.
    A um jornalista exijo muito mais do que a linguagem bloguista.
    Os “comentários” de blogues não me perturbam.Limito-me a não publicar “anónimos” e comentários ofensivos(a mim ou a outros).
    Cumprimentos.

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