Pela sua história, língua, dimensões e pelo simples facto de a América portuguesa se ter mantido unida num só país, o Brasil é um caso à parte.

México. — Este é o país que mais sofreu com a crise. O número de pobres aumentou de seis para dez milhões, um Portugal inteiro. Metade dos novos pobres da América Latina estão agora aqui.

O México está a pagar o preço de ter apostado todo o seu futuro num só país, os Estados Unidos, que são o seu grande vizinho do norte. Quando a bolha do imobiliário rebentou na Califórnia, as ondas de choque atingiram em primeiro lugar os mexicanos; os jardineiros ou as empregadas domésticas que trabalhavam em San Diego ou Los Angeles voltaram cruzar a fronteira para Tijuana; as famílias para quem eles enviavam dinheiro tiveram de apertar o cinto; os sectores que exportavam do México para os EUA enfrentaram uma contracção da procura. Pôr os ovos todos no mesmo cesto nunca foi boa ideia — lembram-se de quando as três prioridades externas de Sócrates eram Espanha, Espanha e Espanha?

Bem, não é por acaso que o país de que se fala no México é agora Brasil, Brasil, Brasil. O Presidente Calderón (eleito em eleições sob suspeita) foi a Brasília visitar Lula. As duas maiores organizações empresariais latino-americanas, que são as dos estados de Nuevo León (México) e de São Paulo (Brasil) estabelecem relações directas. Ainda por cima, o Brasil é dos países que menos sofreu com a crise. Tão depressa quanto possível, o México tenta reequilibrar a sua paleta de relações internacionais (e a balança comercial) e o Brasil é a aposta evidente no continente. A integração regional, do tipo “União Europeia”, é intermitente no Mercosul e incipiente na União das Nações Sul-americanas (UNaSul). Enquanto avança e não avança, a liderança brasileira estabelece-se naturalmente. Às vezes parece até (erradamente) que sem esforço. É cada país latino-americano, por si, que vem procurar o Brasil.

***

Pela sua história, língua, dimensões e pelo simples facto de a América portuguesa se ter mantido unida num só país, o Brasil é um caso à parte. Precisamente por essas características, o seu peso crescente na região poderia não ser bem visto pelos vizinhos. Mas se geridas com cuidado e respeito, essas diferenças todas colocam o Brasil numa posição privilegiada para mediar conflitos, actuar como parceiro equidistante e não acicatar velhas rivalidades.

Como é evidente, a nova predominância do Brasil interessa a outros actores a nível global. Obama parece acolher bem o protagonismo de Lula, e até promovê-lo — “he’s my man”, disse a dezenas de jornalistas. A União Europeia deveria ser um dos maiores interessados em estar com o Brasil num palco global (mas não vejo que Angela Merkel, por exemplo, dedique muita atenção ao assunto). E Portugal, à sua escala, sabe que tem muito a ganhar ao posicionar-se como pivot nessa relação.

Só há um problema: a Europa não sabe lidar com a América Latina de hoje. Para muitos líderes europeus seria interessante que a América Latina fosse um actor passivo: isso é coisa que não existe. Em todo o caso, isso é coisa que países como o Brasil não estão dispostos a deixar acontecer. Os líderes latino-americanos estão coordenados, conhecem-se, e apesar das diferenças entre Lula e Chávez e outros, partilham todos uma vigorosa oposição a qualquer subalternização dos seus países. Se há coisa que os une é o menor sinal de condescendência. O ponto de partida é este. A partir daqui há muito para fazer.

[do Público]

3 thoughts to “O Brasil visto de outro ângulo

  • Luís Filipe Rodrigues da Conceição

    Saudações!!!!!

    Fui emigrante no Brasil durante 22 anos e penso que o Brasil é “erradamente” esquecido por nós portugueses, por isso achei execelente o artigo ” O Brasil visto de outro ângulo”.

    Cordialmente

  • Francisco Castelo Branco

    concordo com a análise

    Mas a quem vão os mexicanos recorrer?

  • A. mendes

    Atores passivos! interessante!
    sou brasileiro, e penso q os europeus poderiam ganhar em muito contribuindo com o desenvolvimento da américa do sul. A pesar dos muitos problemas brasileiros, como a desigualdade q vem baixando pouco a pouco, o país consegue ser um bom país para investimentos com uma classe média crescente e uma indústria diversificada… europa deve abrir os olhos para a américa do sul afinal somos seu espelho!

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