Na última década os salários dos singaporenses aumentaram mais do que o preço do imobiliário durante oito anos seguidos.

Em trânsito. Durante estes dias, em missão fora do país, não adianta sequer tentar acompanhar a campanha eleitoral em Portugal, que deve estar a ganhar pedalada.

O jornal que tenho à mão é, aliás, a coisa menos luso-lusitana de que me poderia lembrar: um exemplar do The Straits Times, de Singapura, datado de 22 de Agosto. Tem fama de ser um dos melhores jornais asiáticos em língua inglesa, e eu conhecia-o apenas da internet. Em papel, com a tinta desbotando-se nas mãos, é uma janela para outro mundo.

Primeiro exemplo: um artigo sobre como os singaporenses andam a comprar mais casas por causa do aumento de rendimentos entre a população. Na última década os salários dos singaporenses aumentaram mais do que o preço do imobiliário durante oito anos seguidos.

Artigo seguinte: um tipo, em serviço militar, foi julgado por um tribunal marcial por ter tentado espreitar pelo buraco da fechadura de uma casa-de-banho feminina. Tribunal marcial! Outro artigo: uma estrela da televisão da vizinha Malásia metida num problema matrimonial e judicial (o marido decidiu processar-lhe um colega de trabalho, ao abrigo de uma lei arcaica, por este ter tentado “chamar a atenção ou deter-se na companhia” da sua cônjuge). Os editores, jornalistas e leitores de um jornal de referência como o Straits Times têm uma assumida curiosidade sobre este tipo de temas. Outra notícia: outra estrela da televisão malaia foi condenada à prisão (com pena suspensa) por ter bebido uma cerveja sendo muçulmana e estando no Ramadão.

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A preocução fundamental, contudo, é esta: o que é preciso fazer para triunfar na China. Os singaporenses, sendo quase oitenta por cento deles descendentes de chineses, e dominando bastante o mandarim, deveriam sabê-lo melhor do que ninguém. Mas não: alguns queixam-se de que já viram “ocidentais passar-lhes à frente” por terem maior capacidade de “pensar como chineses”, o que aparentemente significa (para os singaporenses) pensar mais desorganizadamente. O caso é tão importante que o primeiro-ministro já declarou que o “factor China” passaria a ser preferencial em algumas contratações de funcionários públicos. Entre as características essenciais, o singaporense-alvo não deve incomodar-se com o facto de os chineses falarem mais alto e gostarem de beber aguardentes em boa quantidade para concluir negócios. Se é isso que é preciso para ter sucesso, os singaporenses querem.

E aqui chegamos à página de opinião, onde um dos artigos ataca a ideia de estado-nação, assinalando que se uma nação é uma realidade homogénea etno-linguística, um estado deve simplesmente ser uma conveniência política para conseguir manter a paz necessária aos negócios. Uma conclusão que deve dar jeito a um país multi-étnico e “artificial” como Singapura (passado um pouco, vejo o mesmo artigo na imprensa russa, mas citado com destaques opostos, atacando a proliferação de micro-estados). Finalmente, uma jornalista chinesa da Malásia conta como a mulher mais rica do mundo é outra chinesa da Malásia que imigrou pobre para Singapura e que enriqueceu a vender sistemas de filtragem de água. Conclusão: o “sucesso” é do trabalho malaio, mas o proveito é da marca Singapura.

E assim vai, página após página: sucesso (e como obtê-lo), comparação com os países vizinhos e a ocasional história sobre uma estrela em apuros. É outro mundo. E, ao mesmo tempo, talvez não seja.

[do Público]

One thought to “Lendo um jornal de Singapura”

  • Joao Azevedo

    Boa noite. Foi com prazer que li a sua crónica sobre a fugaz leitura do Straits Times na sua passagem por Changi, Singapura. Vivi um par de anos em Singapura e volto lá com frequência (no final de Setembro próximo por lá estarei de novo). Como votante ocasional BE e quarentão que teima em se dizer de esquerda, a Lion City deixa-me um pouco desconfortável: a “democracia musculada”, ou “ditadura benigna” pode ser um caminho? Aparentemente sim… Quanto ao Straits: apesar da inegável qualidade por vezes é, subliminarmente, a voz do dono, como se esperaria duma sociedade moderna mas com raízes em Confúcio.
    Como expatriado longe da família dediquei-me na etapa Asiática a blogar acerca das minhas andanças, e o hábito ficou: mesmo agora que estou em Portugal continuo a viajar e, por tique, despejo na blogoesfera umas fotos e uns comentários a correr. Se o Straits lhe fez sentir curiosidade sobre o caso único que é Singapura, sugiro um clic em http://asteroide330.blogspot.com/search/label/Singapura. Se gostar de viagens, mesmo daquelas como eventualmente serão as suas, sempre a correr de um lado para o outro, encontrará muitas histórias em http://www.asteroide330.blogspot.com. Boa sorte em Bruxelas.

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