Há uma competição consciente pelo termo “esquerda” no plano partidário, que desembocou neste fim-de-semana com notícias sobre incursões à esquerda para a composição das listas de deputados.

Na campanha de 1995 contei o número de vezes em que ouvi Guterres pronunciar a palavra “esquerda”. No debates com Fernando Nogueira ocorreu uma vez, uma única. Pode ser que em comícios tenha acontecido outra vez.

Quinze anos depois José Sócrates apresenta recorrentemente o PS como “grande partido da Esquerda” moderna, ou democrática, ou progressista, conforme a ocasião. Há uma competição consciente pelo termo “esquerda” no plano partidário, que desembocou neste fim-de-semana com notícias sobre incursões à esquerda para a composição das listas de deputados.

O que aconteceu? Poderá não haver acordo sobre as posições relativas de Sócrates e Guterres (uns dirão que Sócrates está à direita de Guterres, outros que está exactamente no mesmo lugar e outros ainda que está à esquerda) mas isso pouco importa. Todos concordarão — até os próprios — que as diferenças entre os dois homens não são tão grandes que justifiquem esta alteração.

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Então que aconteceu nos últimos quinze anos no panorama partidário português? Três coisas, por ordem cronológica.

A primeira é o aparecimento do Bloco de Esquerda. Sim, eu sei que sou eurodeputado independente eleito nas listas do BE, então se quiserem tomem isto com um grão de sal. Mas é evidente que um partido aparecido há dez anos e que ganhou peso eleitoral de forma crescente e constante à esquerda do PS só pode ter tido influência neste processo — ou então a lógica é uma batata. O PS em tempos só tinha de se preocupar com os votos que perdia ao centro, precisamente onde a palavra “esquerda” poderia assustar. Isso agora mudou: a palavra “esquerda” pode ajudar a estancar os votos que se perdem para o BE. Sócrates e Guterres até poderiam ser as mesmas pessoas, mas as circunstâncias não são as mesmas.

Em segundo lugar, temos uma mutação de médio prazo que trouxe o eleitorado português muito mais para a esquerda, e que se consolidou a partir da fuga em mim maior de Durão e da tragicomédia de Santana e Portas (nas quais pontificava Manuela Ferreira Leite, se é que alguém já se esqueceu). O espaço vazio ao centro ficou para o PS, a que se acrescentou uma governação que era basicamente a transposição do controle do défice e da missão das reformas para outras mãos. As diferenças de estilo ou simbólicas são menos fortes, para categorias profissionais inteiras, do que a memória do confronto entre elas e o governo — ainda por cima alicerçado, entre comentadores e alguns apoiantes, numa retórica já de direita, toda ela feita de elogios à teimosia e arrogância governativa. Isto explica também as boas votações do PCP.

Em terceiro lugar, houve a candidatura de Manuel Alegre à presidência, que afrontou directamente o partido e conseguiu uma excelente votação. Independentemente de saber se foram votos pró-Alegre ou anti-Sócrates, a verdade é que essa votação demonstrou que há um eleitorado na ala esquerda do PS que abandonou a docilidade e castiga o partido quando for necessário. Que poucos líderes apareçam a dirigir-se a esse eleitorado é explicado pela obediência das carreiras partidárias — e explica, por outro lado, a popularidade de rebeldes como Alegre ou Cravinho.

A questão é: que significado concreto tem isto tudo? Algum, mas pouco, ou pouco determinante. Nunca ninguém fez um esforço sério para acabar com a praga dos falsos recibos verdes. O fim do sigilo bancário foi aprovado a muito custo no fim do mandato. As leis anti-corrupção de Cravinho foram recusadas. Quanto mais se ouve a palavra esquerda — o que, digo eu, é bom — mais sabemos que país nunca foi governado significativamente à esquerda. O que — digo eu — é mau.

[do Público]

6 thoughts to “Quinze anos

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Acho que pegou bem no tema, que de facto é interessante, nas depois perdeu-se um pouco a desenvovê-lo, talvez tenha opotunidade de retomá-lo…tem pano para mangas e tem que ser melhor abordado.

  • Rui Sousa

    A competição não é só pela palavra “ esquerda “, a competição é por tudo aquilo que no fim coloque um partido na frente de todos os outros. Obviamente que os partidos de direita usarão palavras diferentes, para públicos também diferentes, mas falando dos partidos de esquerda, que é a esses que o post se referia, a competição ainda não começou e já vale tudo menos tirar olhos. A última, diz respeito ao assédio de deputados, ou melhor da deputada do B.E., com protestos e desmentidos de ambas as partes ( como já vem sendo hábito ), uns e outros demonstrando pudor pelas respectivas atitudes….e no fim, o mesmo de sempre: a coisa espremida não deita nada ( ainda por cima há pouco tempo assistimos ao assédio em sentido contrário ao deputado Manuel Alegre do P.S. por parte do B.E., ou estarei eu a ver mal a coisa? ). Aquilo que é essencial e importante discutir ( que são as ideias de cada partido ) fica para quinto plano. Isto tornou-se um pouco como certos programas de televisão. Não sei se os partidos fazem política desta forma porque só assim têm audiência ou se nos fazem mesmo passar por parvos e acham que se nos derem algo de mais sério nós não temos alcance para a coisa. Se calhar merecemos mesmo os políticos que temos. Deve ser isso. Então estará tudo explicado.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Totalmente de acordo, Rui Sousa!

  • André Pereira

    ~Concordo inteiramente com o que é dito. Não se pode ter medo de falar de esquerda em Portugal. Pecisamos é de mais esquerda.

    politicamente-falando.blogspot.com
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  • Augusto Küttner de Magalhães

    Mais esquerda, ou melhor e mais sensata esquerda?

  • João Cerqueira

    Dr. Rui Tavares

    Uma vez que neste texto aborda a questão «da Esquerda», gostaria de lhe perguntar o seguinte:

    1- Tendo o Bloco de Esquerda escolhido sentar-se no Parlamento à esquerda do PCP _ acto simbólico muito importante, semelhante ao do CDS se posicionar à direita do PSD_, porque parecem os seus líderes temer a designação de o Bloco ser um partido de Extrema-Esquerda?

    2- Descontando as questões fracturantes _ a liberalização das drogas e o casamento homossexual , com as quais concordo plenamente _ em que difere a política económica do Bloco da do PCP, uma vez que ambos defendem a estatização da economia e rejeitam o modelo capitalista?

    3 – Voltando ao tema da religião, considera a imposição do véu e da burka nas sociedades islâmicas práticas culturais que devem ser respeitadas ou um atentado aos direitos das mulheres?

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