O problema essencial da civilização humana, durante séculos de história, foi o da escassez de informação. Havia enormes buracos naquilo que nos faltava saber; havia até continentes inteiros de que desconhecíamos. O nosso problema essencial agora continua a ser o da informação, mas de outra forma tão intratável que chega a ser exasperante. Porque o primeiro problema é sequer identificar qual é o problema.

Antes, como disse, era fácil concluir que o problema era informação a menos. Hoje chegamos muitas vezes a afirmar que o nosso problema é informação a mais. Não há quem não tenha sentido o bloqueio mental que provoca a sobrecarga de informação. Sobre qualquer assunto, sobre milhares de assuntos, há demasiada coisa para ver, demasiada coisa para ler — e enquanto o fazemos estamos a perder tudo o que há para ler e para ver nos outros milhares de assuntos. Será que é esse o nosso principal problema? Seria importante sabê-lo: se a sobrecarga de informação é o nosso problema fundamental, isso significaria uma enorme ruptura com o resto da história humana, e implicaria a criação de estratégias para lidar com o novo problema.

Às vezes penso, porém, que a “sobrecarga de informação” é mais o efeito de uma ansiedade do que um problema real. Continua a haver muita coisa sobre a qual nos falta saber mais (a escassez de informação coexiste ainda com a sua sobrecarga) e, acima de tudo, às vezes parece que grande parte da “sobrecarga” é propositadamente irrelevante. Se gastamos horas e horas com o funeral de Michael Jackson ou a chegada de Cristiano Ronaldo ao Real Madrid, histórias nas quais a base factual é diminuta e há pouco mais a saber, é porque insuflamos propositadamente essas histórias para nos ocupar o vazio e fazer negócio. Nesse caso, o nosso problema fundamental não seria a sobrecarga de informação relevante mas antes a nebulosa de informação irrelevante que a envolve e oculta.

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Uma ou outra alternativa são importantes porque, como se costuma dizer, informação é poder. E se a informação relevante está mal distribuída é porque isso dá vantagem a quem já detém mais poder. Notou-se no recente caso Madoff que muitos bancos sabiam que os negócios do burlão americano eram provavelmente fraudulentos, mas que nada fizeram para o impedir de negociar. Não o fizeram porque saber e calar, ou simplesmente saber e enviar uma mensagem cifrada nas entrelinhas para os seus aliados, lhes dava uma vantagem sobre o resto da população.

Há gente prejudicada e gente beneficiada pelas assimetrias na informação, e no entanto a política liga pouco ao assunto porque ficou ainda, mentalmente, no século XIX. Para a política actual o mundo continua como se os problemas fossem os antigos. Para a mentalidade do século XIX, um político limitava-se a ser um representante da vontade popular, porque se suponha que esse representante já sabia tudo o que havia para saber (sobre a realidade e sobre o que a vontade popular pensava dessa realidade) e restava-lhe passar essa informação pelo filtro das ideologias, das classes sociais, do interesse de Estado — et voilà. Era fácil a visão do político nesta altura.

Mas se o nosso problema da informação é agora outro — sobrecarga, complexidade, irrelevância ou mais ainda — facilmente se vê que não há sequer uma vontade popular, ali à mão do político, para representar. O político tem então de passar por uma mutação que fará dele uma espécie de vai-e-vem permanente entre a realidade complexa e a sucessiva (e imperfeita) apropriação que o público vai fazendo dela. O político, na verdade, tem de ser mais como toda a gente. O que não é fácil, quando ainda fazemos dele uma categoria à parte.

[do público]

8 thoughts to “O que fazer à informação?

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Caro Rui Tavares, o unico comentário a este texto, é : parabens, pela forma e pelo conteudo! totalmente de acordo!

  • Nuno Ferreira

    Caro Rui,

    concordo inteiramente com esta reflexão, que põe o dedo na ferida, a informação é muita, mas pouca é de “qualidade”, e a de qualidade, isenta, educativa, é fortemente ultrapassada pela populista, básica e focada no acessório e geradora de cidadãos info-excluidos. A estratégia é semelhante ao analfabetismo, só que vivemos um analfabetismo por excesso de informação de má qualidade, que adormece as pessoas, e esconde as questões realmente importantes.
    Esse papel de mediador e formador de cidadãos existia nos paises ocidentais e “desenvolvidos” com a acção das Bibliotecas (Escolares, Públicas, Universitárias, etc.) mas com o corte gradual de verbas, de recursos, acelerado agora com a crise tem contribuido para uma inversão deste papel com todas as consequências que daqui advêm, veja o caso dos cortes escandalosos que atingem as Bibliotecas Públicas de Nova Iorque, em que a direcção teve que apelar a figuras públicas para que salvassem a herança e os serviços gratuítos oferecidos à população. Mas também cá, com o afogamento orçamental da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, desde do inicio desta legislatura, que impede a criação de novas bibliotecas, assim como, dos respecivos serviços, tão necessários em tempos de crise.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Se todos e cada um apostarmos na qualidade pela qualidade ecom qualidade, sem segundo, terceiros ou quintos intersses, muito ainda pode ser bem mudadado!!!!

  • l.rodrigues

    Depois de ler umas coisas sobre o assunto (uma leitura fundadora foi um pequeno livro chamado “Influência”, popular em alguns meios do marketing), fiquei convicto de que o excesso de informação (independentemente da qualidade) acaba por esbater a nossa condição de “animais superiores”.

    Uma das coisas que nos distingue do resto da bicharada é a capacidade de reflectir. Pensar no que vimos, ouvimos, etc, e antecipar desfechos, consequências, futuro etc. È muito fácil construir situações em que reagimos por instinto, numa clara economia de esforço. E somos tanto mais chamados a essa economia quanto menos formos capazes de processar a informação.

    Por isso a quantidade excessiva funcionará sempre contra nós. Acabamos por dar mais resposta ao que é mais fácil, mais imediato, e aos que manipulam os nossos gatilhos mais primitivos, sejam eles instintos, emoções ou mecanismos simples de decisão.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Exactamente, LRodtigues

    AKM

  • RR

    Caro Rui desejo antes de mais, dar-lhe os parabéns pelo seu blog pois cruzei-me hoje com ele por mero acaso e vai passar a estar na minha lista de leituras ocasionais.

    Quanto a este tema, e na minha modesta opinião, é um tema um pouco já “demodé” por a suposta carga de informação já existir em demasia ha várias décadas com a única diferença de que hoje essa mesma informação está disponivel para todos.

    Esta pequena mas brutal diferença faz com que hoje qualquer individuo possa extrapolar da informação que contem o seu próprio pensamente, crítica, opinião e demais transformações por livre vontade e sem qualquer tipo de “filtro”.

    Nesta linha de pensamento e se analisarmos em analogia numa possivel tradução matemática, observamos que invetivavelmente se criarão infinitas matrizes de informação que existirá sempre para explorar.

    Na arte por exemplo a complexidade é tal, que os críticos e os historiadores precisarão sempre das tradicionais ancoras estéticas para se firmarem num porto seguro, referenciando apenas as continuidades dessas mesmas ancoras, muitas das vezes já totalmente ultrapassadas pelas futuras que ainda não reconheceram pelo excesso de informação existente.

    Ou seja, na arte e noutros dominios, a questão do tempo no reconhecimento do “novo” do “bom” ou do “mau” já não se dá como dantes, como algo que variava com o próprio tempo á medida que era constatado mas varia ao mesmo tempo, em várias direcções e por camadas que acabam por definir universos distintos que cada vez mais se cruzam e intersectam.

  • rui lucas

    Como diz,o grande problema é o da medida do tempo.
    Nas teorias irónicas,sobre o desaparecimento dos dinossauros,já havia referência a essa questão.
    De uma forma aligeirada,era mais ou menos isto:
    Os dinossauros tinham atingido uma dimensão(e um peso) tão grande,que precisavam de muitas horas para se alimentarem.Como,há milénios,o dia só tem 24 horas esses grandes comilões deixaram de ter tempo para se alimentarem.As 24 horas não chegavam.
    Coitados dos dinossauros.
    Morreram à fome,por falta de tempo para comerem.

  • RR

    Não me referia ao tempo como o tempo que conhecemos da invenção do homem, em horas ou minutos ou anos, mas do tempo como dimensão e elemento vectorial continuo que apenas é perceptível quando analisado em segementos (história) e que agora cada vez será mais importante a capacidade para tal analise muito devido á existência de outros espaços (excesso de informação) que a par de todas as inovações tecnológicas (media, informática e afins) se cruzam numa matriz impossível de avaliar durante as próximas gerações.

    Daí que será conveniente aceitar a sua coexistência para bem de toda a natural evolução em matriz em todos os campos da actividade como acontece na ciência ao nível molecular ou em outros campos, coexistindo assim multiplos universos culturais (ex: real/virtual).

    Por acaso a questão dos dinossauros deu-se exactamente pelo oposto, apenas por razões biológicas e não genéticas.

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