O Engenheiro Sócrates quer que sejamos gastadores e a Doutora Ferreira Leite quer que sejamos poupadinhos? Seremos gastadinhos.

Não à força de acreditarem eles mesmos, mas à força de querer que os outros acreditem, há gente que ambiciona converter uma ideia má que dá jeito na única ideia que resta para salvar o país. Foi assim com a União Ibérica, em 1870. É assim com o Bloco Central, em 2009. Por conseguinte, talvez baste parafrasear o que escreveram os autores d’As Farpas sobre o primeiro assunto, substituindo-o por termos do segundo. Tentemos:

“O Bloco Central é um talismã que temos em nosso poder como instrumento de realização de todos os sonhos, mas de cujo uso persistimos estupidamente em nos abstermos! Tendes fome? Gritai pelo Bloco Central à mesa de um café, e os criados vos trarão bifes com batatas. Esta é a receita para satisfação de todas as necessidades nacionais! Experimentai-a, ó insensatos! ó cegos!”

O Bloco Central é, efectivamente, muito prático. O director do Diário de Notícias concorda, pois pudera: resolve-lhe a grande decisão editorial que tem de tomar a cada quatro anos e que consiste em deixar de estar com o partido que estava no poder para passar a estar com o partido que estiver no poder. O director do Expresso concorda, porque a Alemanha fez o mesmo, e país que se preze deve sempre repetir os disparates dos alemães. E Vasco Pulido Valente tende a concordar, porque o perigo de muita gente votar à esquerda pode significar que as pessoas querem ser governadas à esquerda. Zeus nos livre: uma vez que cada vez menos gente vota nos partidos do centro, partamos do princípio de que ser governado ao centro é aquilo que o país mais deseja.

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Resolvendo-se isto, não ficam senão pormenores.

O Engenheiro Sócrates proclama-se defensor de soluções neokeynesianas, ao passo que a Doutora Manuela Ferreira Leite propugna pelo antikeynesianismo? É fácil: seremos neoantikeynesianos e, para demonstrar pluralismo, polvilharemos os gabinetes com alguns antineokeynesianos.

O Engenheiro Sócrates quer que sejamos gastadores e a Doutora Ferreira Leite quer que sejamos poupadinhos? Seremos gastadinhos.

Pode haver algum caso bicudo. O Engenheiro Sócrates quer construir o TGV. A Doutora Ferreira Leite tem medo que ele nos roube os centros de decisão, tal como em 1870 as senhoras temiam que as andaluzas lhes roubassem os maridos.

Mas é tão simples, amigos do Bloco Central! Vejam só: faremos apenas uma linha de TGV, vinda de Madrid para Lisboa. À chegada, desmontaremos as carruagens e as enviaremos por comboio de mercadorias para Espanha, a fim de serem remontadas para trazerem novos passageiros apenas de lá para cá. Impede-se os centros de decisão de se escapulirem e dá-se trabalho às mãos improdutivas, desde que não sejam de cabo-verdianos ou ucranianos.

Nem tudo serão desacordos. O Engenheiro Sócrates processa jornalistas e a Doutora Ferreira Leite especula sobre suspender a democracia. Mas possuem ambos, como é sabido, um desopilante sentido de humor. E sempre estará o PSD dispensado de ter ideias para ganhar eleições, um alívio certamente.

Fica o problema resolvido para todos os carreiristas que hesitam entre lamber as botas ao PS ou ao PSD. Os caciques também terão a vida facilitada. E até os eleitores poderão abster-se de se dirigir às urnas, ganhando três domingos inteirinhos. Em vez de suspender a democracia por seis meses, suspendamos-lhe antes o sentido por quatro anos, — e por que não oito ou doze? Gritai pelo Bloco Central! E logo vos trarão o bifezinho com batatas.

Historiador (ruitavares.net). Sugestão de leitura: Gonzalo Calvo Asensio, Lisboa em 1870, ed. frenesi, 2009.

[do Público]

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