A fechar: esta é possivelmente uma recessão em S. Sim, em S. De SOS.

Primeiro disseram-nos que ia ser uma recessão em V, depois em U, depois em L. Uma recessão em V é daquelas em que a recuperação começa logo após o momento em que se bate no fundo. Uma recessão em U seria daquelas em se fica algum tempo estagnado no fundo antes de se recuperar. Agora dizem-nos que será uma recessão em L, sem prazo de recuperação previsto. Pior ainda, dizem-nos que ainda estamos na parte descendente do L — ainda não caímos tudo o que há para cair antes de começar a nossa travessia no deserto. Desconfio que não há de faltar muito tempo até que nos digam que esta é uma recessão (ou uma depressão) em L deitado, o que significaria que estaríamos bastante mais tempo no fundo do que aquele que demorámos a descer. E depois, e depois? Acabaram-se as metáforas. O que será de nós sem metáforas destas? — pergunto.

O economista de formação — e cronista no Jornal de Negócios — João Pinto e Castro responde: “Esta recessão é em escorrega. As crianças perceberão a metáfora”. E depois acrescenta que se trata de um escorrega “sem caixa de areia no fim — antes um tanque infestado de piranhas esfomeadas”. João Pinto e Castro acha que não teria de ser assim, mas que a demora em responder à crise no tempo certo está a tornar a situação desesperada.

Desde o início da crise que, a cada passo, as previsões dos economistas mais pessimistas têm sido confirmadas. Quanto às recuperações dos mercados bolsistas — lembram-se? houve cinco ou seis no último ano — foram de curta duração, acompanhadas de entusiasmos cada vez mais parecidos com tiros de pólvora seca, e não tiveram qualquer efeito. Ontem houve mais um dia de “euforia nas bolsas” e não é de excluir que ainda venha aí mais um pouco de montanha-russa, lá para o fim do ano. Mas tal como nas anteriores ocasiões, tudo o que não for empurrado por alterações fundamentais na economia morrerá cedo e sem história.

A fechar: esta é possivelmente uma recessão em S. Sim, em S. De SOS.

***

Nestes dias em que se promovem fóruns (pouco conclusivos) sobre o futuro do capitalismo encontrei um pedaço de curiosa arqueologia socialista que talvez seja interessante partilhar com os leitores.

Estávamos na década de 1840 e a revolução não vinha longe (segundo alguns, chegou em 1848). Os dois líderes do movimento socialista — Proudhon e Marx — não tinham uma boa relação. Proudhon era mais velho e respeitado, mas era um individualista a quem Marx, uma estrela em ascensão, desconsiderava como sendo um mero “representante dos interesses da classe média-baixa” (isto era supostamente um grande insulto, a que Proudhon respondeu chamando a Marx “a lombriga do socialismo”). A coisa estava feia. Engels, amigo de Marx, proclamou que o socialismo de Marx era “científico”, ao passo que o de Proudhon, menos baseado na inevitabilidade da economia e mais em raciocínios políticos de justiça e liberade, era meramente “utópico”.

Em 1845 Marx escreveu a Proudhon convidando-o a entrar na sua Liga Comunista. Na volta do correio, Proudhon respondeu assinalando que “professo um quase total anti-dogmatismo em economia. Por amor de Deus, não vamos convencer-nos de que chegou agora a nossa vez de endoutrinar o povo: acho melhor não tentarmos instituir-nos como apóstolos de uma nova religião, mesmo que se trate de uma religião da razão e da lógica. Nestas condições juntar-me-ei à vossa associação com prazer, de outra forma não o farei”. Marx não respondeu.

A crónica hoje saiu-me assim. Com cumprimentos “quase totalmente anti-dogmáticos”, até para a semana.

[do Público]

2 thoughts to “Uma recessão em SOS

  • Emilly Oliveira Lopes Silva

    Caro Senhor Rui Tavares,

    Estudo História na Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, e pesquiso a circulação de Livros de História no período pombalino, com atenção especial para a Discursos sobre a História Universal, de Bossuet. Não consegui entrar em contato com o senhor por e-mail, e gostaria de lhe pedir algumas indicações de leitura sobre a importância do referido autor no contexto estudado. Li seu artigo “Lembrar, esquecer, censurar” e o “Pequeno livro sobre o grande terramoto” e percebi que há alguma identidade entre seus trabalhos e meu objeto de pesquisa. Deixo-lhe meu e-mail: chisterlister@gmail.com e peço desculpas pelo meio impróprio deste contato. Muito obrigada.

  • gui castro felga

    … e se aproveitassemos esta altura em que os economistas estão com fama de meteorologistas, para inventar um mundo sem economês ou em que a economia seja um meio e não um fim? imaginação é preciso… (mas sem voltar ao século XIX, please…)

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