Se quisermos ser mesmo pessimistas, a Guiné-Bissau ainda não bateu no fundo do poço. E desengane-se quem pensar que um estado falhado é um problema só para os próprios.

Sou só eu, ou mais alguém está impressionado pela facilidade com que a imprensa portuguesa decretou que a Guiné-Bissau é um caso perdido? Demorou pouco tempo entre dizer-se que a Guiné-Bissau corria o risco de se tornar um estado falhado, depois que a Guiné-Bissau corria o risco de se tornar num narco-estado e, finalmente, que ambas as coisas já eram uma realidade mas que não deveríamos fazer nada para alterar a situação.

Os factos no terreno confirmam, sem dúvida, parte desta história. Um estado onde o Presidente da República e o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas se entreassassinam (é uma palavra nova, justificada pelo ineditismo da situação) com poucas horas de permeio já se tornou num simples palco para uma guerra de bandos. É por isso natural que muita gente olhe para o sucedido como o mais baixo a que se pode descer.

Se tivessem razão, até nem seria mau. Há mesmo guineenses que esperam que o seu país tenha batido no fundo do poço — e, diga-se com alguma frieza, não parecem sentir que a morte de Nino Vieira e Tagmé Na Waié tenha sido uma enorme perda. Com a saída de cena dos dois chefes de bando, a queda no fundo do poço é o momento certo para ajudar, e não para abandonar, a Guiné-Bissau.

Carlos Gomes Júnior, o primeiro-ministro, ainda não está há muito tempo no poder e é visto como um governante ponderado a quem Nino Vieira não dava espaço de manobra. Foi por isso inteligente o secretário-executivo da CPLP, também ele guineense, quando disse que cabia às autoridades do país definirem que tipo de assistência precisariam por parte dos outros países lusófonos. Mas se esta ajuda for pedida — e há muito para ajudar, desde o combate à SIDA até à vigilância contra o tráfico de droga — seria um gravíssimo erro negá-la.

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Medeiros Ferreira conta no seu blogue uma conversa que teve com Amílcar Cabral no ano de 1971, em Londres. Dizia-lhe o líder da luta pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde: «Sabe, o que mais me custa é estarmos a treinar uma geração de jovens a dar tiros. É tão fácil. Temo que levem o resto da vida assim».

Amílcar Cabral estava certo e errado. Certo: os jovens que treinou viveram — e morreram — pelas balas. Mas errado, porque também aprenderam truques novos. Os que chegaram ao poder descobriram agora o tráfico de droga, que não é coisa para arraia miúda: a cocaína chega da América do Sul em aviões particulares, é parcelada e enviada para a Europa. Não tenhamos dúvida de que muita dela entra por Portugal.

Se quisermos ser mesmo pessimistas, a Guiné-Bissau ainda não bateu no fundo do poço. E desengane-se quem pensar que um estado falhado é um problema só para os próprios. Inevitavelmente ele servirá de plataforma para problemas de toda a gente, fora ou dentro de fronteiras. Enquanto os poderosos traficam droga para as nossas cidades, os jovens guineenses cada vez mais arriscam a vida para tentar chegar de jangada às ilhas Canárias. Mas pode haver ainda pior, e ninguém dormirá descansado com a ideia de uma Somália nesta região em que nós portugueses andámos desde o século XV e que chegou a ganhar o nome — nada acidental — de Costa dos Escravos.

Creio que os jovens guineenses merecem melhor e que não há-de ser tão difícil para nós — com cabo-verdianos, angolanos e brasileiros — tentar ajudar.

[do Público]

2 thoughts to “Um país pelo bueiro?

  • Carlos Santos

    O abandono de África pelas nações europeias e pelos EUA, no sentido da mesmo prontidão de ajuda que têm noutros sítios dá nesta triste situação. A solidariedade é um valor em crise nas relações internacionais.
    O Darfur ou o Zimbabwe são apenas os casos mais mediáticos.

    Enfim, uma nota paralela para lhe dizer que parece que os neoliberais desistiram depois desta ronda final:
    http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/03/as-falacias-do-neoliberalismo-e-da.html

  • Rui Tavares

    Olá, Carlos! Enfim a última frase deste texto, que tive de deixar de fora por razões de espaço era algo como: “Há gente que exigiu que enviássemos tropas para os distantes Iraque e Afeganistão com a mesma facilidade com que deixa cair um país com quem temos laços pelo bueiro.”

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