Estão por isso errados todos aqueles que pensam que a solução passa apenas por dar um toque, aqui ou acolá, no desenho institucional da Europa. O grande problema da Europa é de democracia — de fundar ou refundar a futura democracia europeia — e, enquanto não resolvermos esse problema, dificilmente resolveremos qualquer dos muitos outros.

Vamos imaginar que Durão Barroso era um líder político de visão, capaz de apresentar uma estratégia para dar a volta a esta crise e com ela conquistar a confiança dos cidadãos europeus.

Sim, eu sei. É um esforço desumano para uma segunda-feira.

Mas vamos ao menos imaginar que ele seria capaz de convencer os líderes europeus a assentarem numa estratégia coordenada e coerente, mesmo que não fosse a dele. Por outras palavras: que Durão Barroso não chegasse a ser um Barack Obama mas que ao menos conseguisse ser um Jacques Delors. Que tal?

Também não? É, não parece muito realista. E sabem porquê?

A situação que a Europa vive agora é pior do que não ter uma estratégia. É ter pelo menos duas, três ou mesmo quatro reacções instintivas e incongruentes dos seus principais actores políticos. Pior do que isso, são contraditórias. O que interessa à Alemanha não é o que interessa à França, nada disso é o que interessa a países pequenos como Portugal ou a Eslovénia e, de caminho, tudo junto se prepara para escavacar a Europa. Mas por que é Durão Barroso incapaz de olhar para os líderes europeus e dizer-lhes com firmeza que assim não dá?

A resposta é simples: por que não é assim que um secretário age quando fala com os seus chefes.

***

Para ser justo com Durão, a culpa não é inteiramente dele. Se o presidente da Comissão tivesse uma legitimidade democrática maior — ou apenas diferente — da legitimidade dos líderes à sua volta, poderia dizer-lhes: “meus senhores, eu sei que os eleitores franceses ou alemães têm preocupações diferentes, mas eu estou mandatado pelos cidadãos europeus para escolher o que é melhor para todos”. Se a força dele viesse de uma eleição geral, ou ao menos de uma eleição através de candidaturas alternativas no Parlamento Europeu (actualmente, os líderes escolhem um único nome, e o PE confirma), isto seria possível. Mas a fraqueza de Durão vem de necessitar que gente como Sarkozy, Merkel ou Brown o escolham para continuar no cargo. Logo, Durão está dependente das pessoas a quem por vezes deveria fazer frente.

Chegado a este ponto, não é preciso muito mais do que repetir o que Mário Soares tem dito nos últimos dias. Se Durão Barroso é o “expoente” que os líderes imaginam para a Europa, disse Soares, “não vão longe”. Não, não vamos longe: num momento em que, como notou Mário Soares, a Europa volta a ser um “directório dos grandes”, Durão é o secretário do directório.

Pouco depois, num claríssimo artigo saído no El País, Mário Soares notou as cruciais diferenças entre a liderança dos Estados Unidos e da Europa. Obama deixou claro que “a solução não pode ser regressar ao fracassado sistema anterior”. Porque podem eles e nós não? É simples: porque Obama tem a enorme legitimidade de ter sido mandatado, pelo seu povo, para a mudança. E isso nós não temos.

Estão por isso errados todos aqueles que pensam que a solução passa apenas por dar um toque, aqui ou acolá, no desenho institucional da Europa. O grande problema da Europa é de democracia — de fundar ou refundar a futura democracia europeia — e, enquanto não resolvermos esse problema, dificilmente resolveremos qualquer dos muitos outros.

A democracia ainda não nos salva de cometer erros. Mas continua a ser, sem dúvida, a melhor maneira de os corrigir.

[do Público]

2 thoughts to ““Não vão longe”

Leave a comment