Em plena Guerra Fria, o pensador e teólogo americano Reinhold Niebuhr escreveu um livrinho intitulado A Ironia da História Americana. Apesar de ser um texto curto em extensão e claro em estilo é quase impossível de resumir: em cada uma das suas páginas há muitas ideias e em cada uma dessas ideias muitos sentidos. Mas podemos dizer, sem receio de errar muito, que um dos seus principais objectivos é alertar contra o excesso de crença americana na sua própria virtude, que (ironicamente) poderia destruir o idealismo da própria herança americana.

Ao lê-lo na era da globalização, e do lado de cá do Atlântico, é impossível não pensar no que seria um livro destes sobre a Europa, hoje.

A primeira coisa a notar — nenhuma novidade — é que muito do que discutimos hoje na Europa já foi discutido nos Estados Unidos, por vezes há duzentos anos ou mais, quando se estava a construir a democracia americana.

Mas o que mais impressiona — e até aflige — é como as ironias do projecto europeu são, quase sempre, diametralmente opostas às da história americana.

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Comecemos por aqui mesmo. Escrevendo num país com menos de duzentos anos, Niebuhr olhava já para a “história americana”. Na Europa, o continente do passado, falamos antes do “projeto europeu”.

Nesse sentido, o futuro estaria à nossa frente — como eu acredito que está. Mas aí entra a segunda ironia: ao contrário do que se passa nos EUA, a Europa vive apenas convencida dos seus vícios e esvaziada de qualquer idealismo. Todas as palavras progressistas como “projeto” e “futuro” são na Europa pronunciadas com os mais profundos conservadorismo, cobardia e falta de ambição. Para não falar das palavras que só a medo se pronunciam, como “cidadãos” ou “democracia”.

Dizem-nos que isto se passa porque os cidadãos têm falta de confiança nos seus líderes. Esse é apenas um biombo que esconde uma ironia muito amarga: os líderes é que não têm nenhuma confiança nos cidadãos (talvez por saberem que foram eleitos) e fogem deles a sete pés. Nessa fuga para a frente, o projecto europeu faz-se (ou desfaz-se) às arrecuas. Ilustração disso é a última cimeira, em que os líderes lá se comprometeram a respeitar o Mercado Único. Olhai e vede: depois de anos a discutir o futuro Tratado de Lisboa (ele mesmo já obsoleto em face da crise) conseguiram fazer regredir a discussão até ao nível do Tratado de Roma de 1957!

Por detrás dessa ironia vêm uma outra. A cada passo (Convenção, Constituição, Pseudo-mini-tratado, etc.) dizem-nos para não emitirmos qualquer dúvida ou oposição, sob risco de “bloquear o processo”. Mas a cada passo que eles dão, o processo fica mais bloqueado. De facto, os nossos líderes conseguem muito bem desfazer o projeto europeu sozinhos. Na desconfiança que têm dos cidadãos europeus, arriscam-se mesmo a ser fatais para ele.

A mais cruel das ironias é que nunca, como agora, precisámos mais do projeto europeu. Em qualquer dos cenários futuros, seja em globalização ou em “desglobalização”. No primeiro caso, quem mais poderá negociar à escala global senão a futura democracia europeia? No caso de a globalização ruir (como já aconteceu no passado), também só a escala europeia nos permitirá sobreviver em condições razoáveis.

E é mesmo essa a ironia final: só o projeto europeu nos pode salvar. Mas antes disso, vai ser preciso salvar o projeto europeu.

4 thoughts to “A ironia do projeto europeu

  • luis correa de sa

    O que possibilitou a construção da democracia americana foi realmente o espirito genial que esteve na origem da Constituição daquele paiz.

    Os “founding fathers” partiram à procura dum novo mundo mas foram eles que criaram esse novo mundo implantando ideas ( igualdade de todos perante a Lei ) que, na Europa dos herdeiros dos monarcas absolutos, não teriam tido qualquer viabilidade.

    A Constituição dos EUA é como que um documento sagrado que ninguem ousaria alterar. A Constituição é o ponto de referencia por excelencia para os americanos. Na America jura-se fidelidade, não a uma pessoa, ou regime, mas a um documento, a um ideal . Alguma vez isso aconteceria na Europa … ?

    Todos os americanos reveem-se na Constituição pois é a Constituição que os torna iguais perante a Lei. Há os ricos, há os pobres, mas todos se respeitam como homens pois sabem que, perante a Lei, são todos iguais.

    Na nossa Europa tem-se assistido a um esvaziamento gradual do poder do monarca absoluto ( mais nos paizes do Norte do que nos paizes mediterranicos … ), maso espirito centralisador das cidades capitais resiste, como pode, à evolução para uma sociedade mais participativa e igualitaria…

    Aqui, em Portugal, chegou-se ao cumulo de ver o eng. Socrates a mandar no Governo, assim como no Parlamento. Só lhe faltam os tribunais para se chegar à situação de Monarca absoluto, eleito democraticamente para tal cargo …

    O projecto europeu só fará sentido se contar com o apoio das suas populações. Mas como disse, e com toda a razão, os politicos fogem das populações ” a sete pés”. Nos corredores do poder Comunitario até já se fala uma linguagem propria, o “brusselspeak”, incompreensivel para quem não faça parte daquela mafia .

    Os politicos só querem uma Europa desde que esta lhes proporcione lugares no Poder ( politico e economico ). E, como dizem os americanos, o dinheiro e o poder politico são como o estrume : concentrados em locais apertados cheiram mal que se farta; espalhados por uma area maior, fazem crescer as coisas …

    Os melhores cumprimentos de alguem que considera toda esta problematica com muito pouco otimismo …

    Luis corrêa de Sá

  • Maria**

    -Quando uma crise mundial vem afectar as vidas de milhões de seres humanos, é natural que haja uma reacção.A reacção natural ás catástrofes , sejam elas quais forem é de medo e sabemos que o medo traz com ele a perda da confiança; é uma relação causa/efeito que só pode ser trasformada se as pessoas sentirem um clima de protecção e equilíbrio por parte daqueles que os governam.

    democracia:-da confiança e da legitimidade quando alguns dizem que a confiança baixou.
    http://mareamos.blogspot.com/2010/03/democracia-da-confianca-e-da.html

  • Donna

    lidiane disse:Oi Vinicius,obg aedroi a explicação e de saber a verdadeira história da esfinge. Logo voltarei com mais dúvidas e perguntas!

  • Francisco Pires

    Caro Rui Tavares

    Não sei se o lugar mais adequado para esta conversa será este, mas como não encontrei outro meio, aqui vai.
    Já nos ”conhecemos” desde há algum tempo através do Público e do seu blog que muito aprecio, apesar de viver sobretudo na Dinamarca, mas com viagens e relações frequentes com Portugal e Moçambique.
    A razão de escrever estas linhas foi o facto de ter lido recentemente o seu livro ”A ironia do projecto europeu”, que foi uma revelação pela maneira simples e precisa de descrever a UE de hoje, e do seu possível futuro ou rumo a seguir. Eu pertenço ao grupo de dinamarqueses (apesar da origem portuguesa) que sempre votou sim pela Comunidade Europeia e demais designações semelhantes ao longo dos tempos. Mas também desde há muito que hesito em ”votar” pela sua dissolução ou lutar por uma reforma profunda, sem chegar a uma conclusão. Daí a importância que as explicações e ideias expressas tiveram para mim…além da iniciativa do ”movimento” Livre, face à ironia dos partidos e do apregoado e … mal tratado conceito de democracia.
    Por tudo isso, gostaria muito que o seu livro estivesse disponível em inglês e/ou francês também e lhe perguntar se há algum plano para que isso aconteça. Se eu tivesse os conhecimentos necessários para fazer traduções sérias, fá-lo-ia com muito gosto, mas não tenho; capital para isso também não, mas acredito que seja possível e que seria muito oportuno para milhões de pessoas.

    Com amizade e admiração

    Francisco Pires

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