George W. Bush, sem condições intelectuais para ser o Gorbatchov do seu movimento, poderá ficar na história como uma espécie de Honecker da RDA ou Jaruzelski da Polónia.

 

Acontece frequentemente: a primeira geração de ideólogos acredita que os seus princípios vão salvar a nação e o mundo. A segunda geração de partidários descobre com prazer que, além disso, as alavancas do poder permitem beneficiar a amigos e a si mesmos (e de caminho vão salvar a nação e o mundo!). A terceira geração de governantes instalados dá por si a fazer o contrário de tudo o que os princípios ditavam. Mas é preciso salvar a nação e o mundo!

 

Por que não haveria de acontecer isto ao neoliberalismo? A primeira geração, ainda antes de Reagan e Thatcher, acreditava que os mercados se corrigiam a si mesmos e que as empresas eram sempre mais eficazes do que os estados (ou qualquer instituição sem fins lucrativos). Em consequência, a segunda geração não só privatizou o mais possível como descobriu que as privatizações davam imenso jeito para ganhar dinheiro e dar dinheiro a ganhar aos amigos e aliados. E a terceira geração, geralmente feita de incompetentes, corruptos e burocratas? Vamos dar a palavra a George W. Bush, numa entrevista recente: “abandonei os princípios do mercado livre para salvar o sistema de mercado livre”.

 

(O mesmo tinha acontecido, sem sombra de dúvidas, à ditadura do proletariado: não só ela ia salvar o mundo, como era muito prático ser ditador nessas condições e fatalmente se acabava a massacrar o proletariado para libertar o proletariado.)

 

George W. Bush, sem condições intelectuais para ser o Gorbatchov do seu movimento, poderá ficar na história como uma espécie de Honecker da RDA ou Jaruzelski da Polónia — nem sequer lhe faltam as escutas telefónicas, a tortura e as prisões secretas. E as guerras para libertar povos amigos.

 

***

 

Depois disto, que resta? O regresso à pureza inicial é defendido por alguns. Outros persistem na negação da realidade, ao menos para salvar politicamente a honra do convento. Mas de repente percebe-se que a sociedade já deixou de vir atrás dos nossos mitos — em que, aliás, já nem sequer nós sabemos se acreditamos . Faltam as forças para recomeçar qualquer desses caminhos e fica apenas um motivo de satisfação. É o contentamento do general que olha para a terra queimada: ninguém sabe o que vem a seguir e lixámos tudo tão completamente que a reconstrução vai ser uma longa dor de cabeça para quem estiver disposto a tentar.

 

Às vezes até ressuscita uma encantadora ilusão: se ninguém tem um novo mito, já pronto e novinho em folha para entrar em cena, é talvez porque afinal o nosso mito não falhou. Neste quadro ideológico, a história é uma sucessão de paradigmas arrumadinhos e alinhadinhos sucessivamente, e nenhum é derrogado enquanto não houver um substituto. Segundo este raciocínio, enquanto não descobrirem que lhes falta uma chave de fendas, as pessoas continuarão alegremente a usar um martelo para desapertar parafusos.

 

Mas pode ser que não ocorra assim. As pessoas não precisam de uma doutrina pronta a estrear para saber onde a anterior as prejudicou. Sabem que lhes foi vendida uma doutrina do “sucesso” onde toda a gente podia chegar ao topo sem ter de pensar nos que ficavam pelo caminho. Sabem que lhes retiraram direitos sob o pretexto de serem “incomportáveis” e que em troca lhes ofereceram o endividamento em espiral. Sabem que a medida dessa doutrina era uma abstracção e que as pessoas que saíram a perder são concretas. Estão menos preocupados com paradigmas e mais preocupados com princípios; e esses não são difíceis de partilhar.

 

 

[do Público]

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