A nossa infelicidade é como um móvel que sempre esteve no meio da casa. Mas será um assunto a tratar em público?

 

Há poucos estudos comparativos que não dêem os portugueses como entre os mais tristes, ou mesmo os mais tristes de todos os europeus, os mais descontentes e pessimistas. A questão é que fazer com essa noção. Sim, a nossa infelicidade é como um móvel que sempre esteve no meio da casa. Mas será um assunto a tratar em público? Por outras palavras: será a infelicidade dos portugueses uma questão política?

 

Se você acha que não, algo de errado se passa consigo. Provavelmente, o mesmo que se passa connosco. Os gregos, que sabiam qualquer coisa do assunto — dos dois assuntos, aliás — diziam que “a felicidade reside na liberdade, e a liberdade na coragem” (Tucídides).

 

Vamos lá por partes. “A felicidade é a liberdade” não só coloca a questão na política (ou seja, na forma de distribuir o máximo de liberdade possível pelo máximo de gente possível) mas também nos sugere que a liberdade é a capacidade de deter controlo sobre a própria vida. Como estamos em Portugal, sob esse prisma? Que poder temos para tomar decisões no local de emprego, por exemplo, ou entre vários trabalhos precários, sempre endividados, sempre com medo do chefe, sempre com salários baixos? Que acesso à cultura e à educação temos — são duas das mais importante condições de ampliação da liberdade, nada menos — quando fazer uma pós-graduação é caro e voltou por isso a ser socialmente condicionado?

 

Mas a segunda parte, “a liberdade é a coragem”, nota que os entraves à felicidade não estão apenas nas condições sócio-económicas “externas”, mas também dentro de nós. Algures no tempo, quando nos convencemos que a infelicidade era o estado normal das coisas, ganhámos medo. Medo de arriscar, medo de esticar a cabeça, de dizer qualquer coisa fora do lugar. Já repararam como o medo torna os humanos medíocres, e a mediocridade nos torna amargurados?

 

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Abandonando as estóicas alturas, vejamos essa outra versão menos ambiciosa da felicidade que dá pelo nome de “bem comum” — também ela política, toda política. Que importância se dá em Portugal ao bem estar, à qualidade de vida, a uma coisa tão simples como o conforto? Posso responder: todos os dias passa aqui na rua a minha vizinha aposentada, solitária, que se desloca com a ajuda de duas muletas, penosamente evitando os carros — muitas vezes o meu — estacionados em cima dos passeios do bairro. Poderia ser a outra vizinha com o carrinho de bébé, ou um deficiente. Como querem que não sejamos infelizes se somos um país desconfortável, mal planeado, pouco cuidado?

 

Em finais dos anos 90 ia todas as semanas à aldeia dos meus pais um professor de pintura. Os velhotes encontravam-se, faziam exposições, — estavam felizes. Mas isso era evidentemente um luxo, uma loucura “guterrista”, uma fantasia capaz de nos levar à falência (como dez estádios de futebol? ou como salvar bancos de investimento?). Não, não podemos. Em Portugal o que é civilizado é deixar os velhos abandonados e desocupados no fim das suas vidas.

 

Em Portugal, dizem-nos, não há dinheiro para os grandes projectos. Então e os pequenos projectos — arranjar as calçadas, cuidar dos jardins, melhorar o transporte urbano, pintar prédios, cuidar de aldeias, criar bibliotecas, manter museus abertos, fazer desporto amador, pôr creches no local de trabalho? Sim, eu sei. É tudo poesia. Peço desculpa por falar nisto.

 

 

[do Público]

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